A rosa de Hiroshima que nunca foi colhida

E se descobrirmos que todas as nossas escolhas foram erradas?

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Imagem da internet, disponível em Google Images.

Sempre quando penso na vida, penso nas escolhas que fizemos, penso nos arrependimentos que terei quando eu for velho, nas coisas que eu gostaria de ter feito e naquelas que, definitivamente, eu preferiria nunca ter pensado em fazê-las. Inevitavelmente, acabo pensando nas coisas que as outras pessoas poderiam se arrepender ao longo de suas vidas, do que elas gostariam de se lembrar e o que elas gostariam que deixasse de existir. Penso nas grandes figuras da história, nos líderes e tiranos que dominaram sociedades inteiras, nos conquistadores e colonizadores que dizimaram civilizações completas para impor seu domínio.

A história da humanidade sempre foi algo que me encheu de sentimentos mistos: por um lado, me causa fascínio pelas grandes coisas que nós fizemos ao longo de milênios de existência, por outro, me assusta pela quantidade de atos atrozes que cometemos.

O ser humano parece viver eternamente preso a uma dicotomia que o impede de viver em harmonia com o mundo e com os outros. Parecemos incapazes de cometer atos bons sem, na mesma medida, cometermos atos maus. Ê como se vivêssemos continuamente no limiar entre o bem e o mal, passeando entre os dois lados, negociando com deus e o Diabo.

Nós vivemos no eterno crepúsculo e só assim podemos ser luz e trevas. Talvez seja isso que nos defina tão profundamente: nascemos com o melhor e o pior de tudo, vivemos nos extremos, somos as duas faces da moeda. Isso nos dá um poder enorme, mas perigoso. Enorme porque nos permite mudar o mundo. Perigoso pelo mesmo motivo. E quantas mudanças já fizemos? E qual foi o preço que pagamos por elas?

Esse preço me causa medo, pois ele é indiferente à natureza daquilo que fazemos, mas sempre será cobrado não importa o que fizermos. De um modo ou de outro, sempre teremos que pagar por nossas escolhas e, consequentemente, por nosso futuro. O problema está na moeda que oferecemos em troca.

Quando penso nos homens que lançaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, penso no arrependimento que eles possam ter tido (mesmo sabendo que eles podem não ter tido arrependimento algum). Pergunto-me se chegaram a pensar nas pessoas que morreram, se viram os fantasmas delas em seus sonhos durante a noite. Penso nos líderes do Japão daquela época, no que eles imaginaram quando atacaram Pearl Harbor, se dormiram tranquilos na noite daquele dia. Penso nos homens das guerras, se conseguem ter pensamentos felizes em meio ao caos, se conseguem resgatar um pouco de humanidade após cada tiro no alvo. Penso em Hitler, se ele realmente achava que estava purificando o mundo, se ele realmente cria que o que fazia era por um objetivo bom.

Eu tenho medo de todas essas perguntas, tenho medo de descobrir que, no fim, nada mudou, ninguém se arrependeu e que estamos todos condenados ao fim. Tenho medo de pensar que todas as atrocidades que já fizemos não tem qualquer importância. Tenho medo porque, no fundo, quero acreditar que, sim, nós nos arrependemos e sofremos por todas as escolhas ruins que fizemos. Quero acreditar que, se erramos, erramos por não sabermos o caminho certo e que, se persistimos no erro, o fazemos por pura ignorância e teimosia. Quero acreditar que o homem que autoriza um ataque militar contra uma cidade perdida no meio do Oriente Médio é o mesmo homem que ficará sem dormir noites seguidas, pensando nos inocentes que morreram para que sua missão fosse concluída. Quero acreditar que, mesmo fazendo tantas escolhas erradas, no fundo nós só queremos fazer as escolhas certas, queremos fazer tudo diferente e que, se não fazemos, é porque o mundo nos pressiona demais contra isso. Quero acreditar que ainda há bondade em nós mesmo que isso seja apenas um conceito subjetivo qualquer.

Até a próxima.

Ney Matogrosso – Rosa De Hiroshima (Ao Vivo)

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

Entre o ontem e o amanhã sou o hoje.

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