A vida secreta de um ghostwriter

Sobre a vida de quem existe apenas nas entrelinhas.

Mão fantasma
Imagem da internet, disponível em Google Images.

Eu não sabia o que era um ghostwriter até poucos meses atrás, quando descobri que o que faço há anos tinha um nome. Ghostwriter (ou escritor fantasma, em tradução direta) é aquele(a) que escreve textos diversos para vários clientes, mas  cuja autoria não é dele próprio. Como assim? Um cliente X me contacta e me pede para escrever um trabalho qualquer. Eu escrevo e entrego ao cliente, mas entrego também não só o trabalho, mas a autoria. Se for um livro, por exemplo, quem escreveu foi eu, mas o nome que irá aparecer na capa é o do cliente. Eu existo apenas no contrato feito entre mim e o tal cliente X.

Isso é muito comum, na verdade, e não necessariamente ilegal (tudo depende do contexto em que o trabalho é feito). Um grande número de autobiografias, livros de auto-ajuda, culinária, entre outros são feitos assim e isso nunca foi um problema para ninguém. E não é. O cara que trabalha assim o faz sabendo que, no fim, vai continuar oculto, fantasma, sem receber crédito algum. Em contrapartida, não recebe crédito, mas recebe uma boa quantia em dinheiro, pois ser um ghostwriter não é barato.

Eu comecei nessa vida há quase dez anos atrás. Não tive um número enorme de trabalhos, mas tive o suficiente para construir um histórico profissional bom nessa área. Em todos os trabalhos que me envolvi, sempre tive avaliações positivas e com conceito alto, então isso me permite estabelecer minhas próprias regras. Mas, não se engane achando que essa vida é mil maravilhas. Pelo contrário, pode ser bastante turbulenta às vezes.

A começar pelos clientes, o ghostwriter é forçado a ter uma paciência infinita e uma compreensão ímpar de que nem todos os que o procurarem são exatamente as melhores pessoas. Muitos motivos podem fazer  alguém procurar os serviços de um escritor fantasma, pode ser tanto uma agenda lotada que o impede de se dedicar a um livro, como simplesmente um “não tenho tempo para ficar escrevendo”, assim mesmo, sem qualquer explicação. No mais, com o tempo você aprende que o motivo é o que menos importa nesse trabalho. Então vem as negociações, propostas de orçamento, prazos, exigências. Quase sempre é você quem dá as cartas e o cliente diz sim ou não. Mas, já me deparei com alguns casos em que eu tive pouca liberdade de decidir qualquer coisa.

Uma coisa que precisa ser entendida é que, em grande parte das vezes, o ghostwriter vive num limbo legal, judicialmente falando, onde ele tem poucos mecanismos de proteção. Claro que isso não é uma regra, mas faz parte do dia-a-dia de quem vive disso. Trocando por miúdos, uma pessoa que contrata os serviços de um ghostwriter não deixa de ser uma fraude porque, no fim, o mérito da produção jamais será dela, apesar dela receber todos os créditos por isso.É quase um dilema ético e psicológico.

Mas enfim, o negócio foi fechado e então você começa o trabalho. Nesse ponto, é preciso entender que, muitas vezes, o ghostwriter é aquele cara que faz em duas semanas (ou até menos) o que alguém (o cliente) não conseguiu fazer em seis meses (ou até mais do que isso). Logo, você é forçado a explorar ao máximo suas habilidades de criação de texto, pesquisa, edição, entre outras coisas que podem surgir no caminho. Soma-se a isso o fato de que, com o tempo, você vira uma biblioteca ambulante de vários assuntos. Em meu caso, por exemplo, já trabalhei com jornalismo, relações públicas, direito, medicina e medicina do trabalho, marketing, gastronomia, história e letras, sem contar outros trabalhos menores. E, nesse ponto, se eu posso mencionar algum ganho importante para o escritor, é o de conhecimento, pois você nunca aprende tanto e em tão pouco tempo senão fazendo isso.

É um trabalho difícil na maior parte do tempo, tanto tecnicamente falando, como psicologicamente.Em muitos momentos, você vira dias seguidos sem dormir, escrevendo, revisando e editando porque o prazo final (carinhosamente chamado de deadline) tá logo ali e você precisa terminar isso o  quanto antes. Você tem que saber lidar com a falta de reconhecimento (quem não gostaria de ser reconhecido como o autor de um livro bacana?), com as negociações injustas, exigências absurdas, prazos alucinantes. Mas você sobrevive.

Ao longo desses quase dez anos, não tenho muito do que reclamar. Gostaria, não nego, de ser reconhecido por algum trabalho importante porque, em alguns casos, você realmente se entrega ao que faz e isso aconteceu com alguma frequência comigo. Mas aí, você acaba recebendo uma mensagem de algum desconhecido que diz que ficou sabendo de você através de pessoa X que o recomendou pelo bom trabalho que fez com ela. Ainda que um gesto pequeno, isso é bastante reconfortante e agradável. Então, você segue sendo o fantasma entre as linhas do texto que pessoas lerão sem nem saber que você está ali no meio, nas entrelinhas.

Até a próxima.

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

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