Sobre sair do armário num mundo de hostilidades

Quando a liberdade de ser se choca com a liberdade de viver.

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Imagem da internet, disponível em Google Images.

No meio dos grupos de ativismo LGBT+, muito se fala sobre “sair do armário”, às vezes como um convite à liberdade, às vezes como uma sentença de participação. Veja bem, para grande parte dos gays, das lésbicas, bissexuais, transexuais e toda a comunidade LGBT+, “sair do armário” pode ser bem traumático e, ainda que isso seja um convite à liberdade do ser, nem sempre ele vem acompanhado da liberdade de viver.

Não, não estou defendendo que as pessoas, especialmente aquelas que fogem do “padrão” sexual e identitário, devam viver eternamente confinadas ao armário de suas existências. Entretanto, não se pode sair por aí, aos quatro ventos, forçando a todos a saírem do armário como se, para todos, isso resultasse numa experiência transcendental a la “Priscila – A Rainha do Deserto”.

Enquanto, para uns, se afirmar gay pode nem ter tanta diferença assim, para outros tantos isso pode significar muitas coisas, nem todas boas. Não é raro gays que tiveram de abandonar suas casas ao se revelarem homossexuais. Alguns perderam seu trabalho, os laços familiares, amigos. Outros se viram marginalizados, hostilizados, isolados num mundo em que ninguém lhes estendeu a mão ou lhe oferecera compreensão. E há os casos extremos em que outros tantos saíram do armário para, no fim, terem suas vidas tiradas cedo demais.

Não, isso aqui não é um texto de crítica para as pessoas de dentro do padrão. Na verdade, meu texto se volta especialmente à nossa comunidade. Há muita luta no meio lgbt+ e nem sempre essa luta dá espaço para entender a realidade do outro. Geralmente, vê-se apenas a realidade do grupo, mas não de seus indivíduos. É fácil convidar a todos a saírem de seus armários sem sequer se por à disposição de conhecer as realidades particulares de cada um de nós. É fácil fazer um apelo generalizado pela liberdade de se ser o que se é sem se pensar no preço que muitos terão de pagar.

E, antes que me interpretem mal, não estou incitando a ninguém a se manter em reclusão e ocultar suas vidas e sentimentos. Não! Na verdade, eu realmente acho que devemos todos sair dos nossos armários e sermos livres, explorar nossas vidas, nossos sentimentos e tudo o que somos. O que eu quero, o que eu gostaria de ter tido e não tive, é apoio, é saber que, quando eu sair de meu armário, eu terei em quem me apoiar, terei quem possa me ajudar a superar esse momento tão difícil. Não se pode dar uma vara de pesca a alguém sem lhe ensinar a pescar.

Escrevo isso tudo para pedir a todos vocês que pedem tão calorosamente que saiamos dos nossos armários, que nos ofereçam a mão amiga quando isso acontecer. Peço que não nos deixem sós quando decidirmos dar voz a quem somos e quebrar com as barreiras do isolamento social e familiar. Mais do que clamar pela libertação de todos, vamos estender as mãos aos libertos, ser o apoio de quem acaba de descobrir o mundo. Lembremo-nos que muitos de nós, um dia, estiveram presos em seus próprios armários e, sendo assim, sabemos bem como é sair de uma prisão e dar de cara com tanta hostilidade só porque, um dia, decidimos ser quem somos.

Abraço.

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

Entre o ontem e o amanhã sou o hoje.

2 comentários em “Sobre sair do armário num mundo de hostilidades”

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