
Para quem sempre a solidão fora uma amiga, estar só não é algo ruim. Na verdade, poder-se-ia dizer que os momentos de solidão são aqueles em que melhor se está consigo mesmo, é quando se encontra a paz perdida nesse mundo caótico e passa a se sentir em harmonia consigo e com o mundo.
Quando se é surdo, a solidão ganha outro sentido. Quando se é surdo, mas faz-se uso de aparelhos auditivos, a solidão ganha outro leque de facetas. Para muitos, estar só pode ser opressivo e incômodo. Para outros – e me incluo nesse grupo – estar só é uma necessidade tão impreterível quanto comer ou beber água.
Aqui há que se destacar que há uma tênue diferença entre estar só e sentir-se só. Estar só diz essencialmente sobre estar isolado de outros, é algo físico, material. Em contrapartida, sentir-se só é algo que reina nas sensações, no subjetivo e imaterial, é a solidão quando se está cercado de pessoas.
O amante da solidão nem sempre se sente só ainda que esteja só. A solidão vem como um convite de alento, uma espécie de refúgio do mundo externo.
Sempre fui muito solitário; às vezes, por falta de opção. Quase sempre por escolha. A solidão me é necessária porque não sou das pessoas mais hábeis no lidar com outras gentes. Sou um tanto sensível e temperamental e isso, por si só, me faz sentir um constante incômodo quando cercado de outras pessoas. Não quer dizer, no entanto, que eu seja misantropo ou algo assim. Na verdade, o mundo tem informação demais e isso me tumultua a mente. O sociedade é como uma espécie de Twitter em 3D onde todos falam demais e ao mesmo tempo, mas ninguém consegue ouvir o outro no meio dessa balbúrdia acalorada. É estímulo demais para mim.
E eu sou lento, devagar, não gosto de nada frenético demais. Quero dizer, eu evito qualquer coisa que seja minimamente intensa demais. E tenho visto que, ao longo dos anos, tenho me tornado cada vez mais recluso, fechado e silencioso. Falar já não é mais uma necessidade, primeiro porque me cansa, segundo porque não me ouço no meio de tantas vozes.
Por sua vez, minha gentil e progressiva surdez tem feito o papel de agente duplo, sendo, ao mesmo tempo, um incômodo e um alívio. Incômodo porque, ao ficar surdo, muitas coisas perdi. Alívio porque, no meio de tanto barulho, o silêncio é uma dádiva.
Óbvio que nem todos entendem isso. Amigos e familiares me estranham por isso, acham que evito as pessoas porque não gosto delas ou algo assim. O que não corresponde à realidade. Eu amo os meus, no entanto, eu me afasto não porque não aprecie suas presenças, mas porque às vezes se torna demasiadamente difícil conviver com outras pessoas, é como se minha mente não funcionasse no ritmo certo. Para além disso, há a surdez que, quase sempre, me coloca num limbo comunicativo porque: (a) não consigo ouvir direito; (b) as pessoas não tem muita paciência para lidar com alguém surdo. Então me calo. Mas não estou dizendo que me isolo por culpa de alguém. A verdade é que isso acaba virando uma desculpa conveniente para eu me afastar porque, para quem a solidão sempre foi uma amiga, estar só é um privilégio.