
Quando se pensa em literatura e em todo o universo de produção literária, geralmente se vê o escritor como o agente da ação de escrever. É ele que dá a forma à palavra, sentido inicial à sua história. E, por certo ângulo, é isso mesmo. O autor é criador de seu próprio universo e, por que não, de sua própria realidade. Mas, não só isso. Ele é, também e na via contrária, criação de sua criação, reflexo de sua própria obra, fruto da semente plantada por ele mesmo.
Fernando Pessoa, em seu (lindo) poema “Autopsicografia”, já dizia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
O mais interessante, aqui, é que o poeta, ao “fingir que é dor a dor que deveras sente”, vive e experimenta sua própria criação, sendo modificado por ela. A dor, agora, não é a mais a mesma dor, mas outra, ainda que seja a dor que ele já sentia.
Quando escrevo, as palavras que fluem pelo texto me modificam, alteram minha percepção de realidade. Quando um leitor lê um livro qualquer, é ele quem dá sentido à história. Quando um escritor escreve, é o texto quem dá sentido a ele. O texto é a voz que não ousou se calar, a mensagem que não se perdeu, a palavra que não se apagou. Quando escrevo, eu não modifico o mundo, mas a mim mesmo. E é por essa mudança que eu mudo o mundo e não o contrário.
E nisso, vejo muito paralelo com o pensamento de Gandhi, quando este disse “seja a mudança que você quer ver no mundo”. O autor, como criador e criação, é o primeiro a experimentar as sensações que sua obra pode causar. Por isso, é o primeiro a ser modificado por ela. O leitor, ainda que o destino final da obra, recebe o texto já transformado, já preparado para lhe dar algo. O leitor, aqui, é o receptáculo, ainda que não somente isso. O escritor é o cordeiro.
Escrever não é apenas o ato de colocar em linhas o que ninguém diz, mas também, colocar nessas mesmas linhas, um pouco de si. Escrever é esmiuçar-se, desfazer-se, entregar a um processo de desconstrução onde o autor, no fim, se torna parte de seu livro, parte de sua obra. O autor escreve o texto, mas é o texto quem escreve o autor.