Eu, ateu.

“A fé não foi feita para os céticos, essa é uma verdade que aprendi entre idas e vindas na igreja.”

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Photo by Pedro Henrique. Todos os direitos reservados.

Ainda que a virada de ano de 2016 para 2017 tenha sido como todas as outras viradas de ano pelas quais passei, 2017 começou ligeiramente diferente no que tange a minha vida pessoal. Eu resolvi sair do armário e não, não estou falando de minha sexualidade (essa eu já libertei há muitos anos atrás), mas de religiosidade, ou, no meu caso, da ausência dela.

Cresci em lar cristão-protestante (duas palavras que, ainda hoje, me soam estranhas). Fui frequentador assíduo e por muitos anos da Igreja Batista e, depois, da Igreja Cristã de Nova Vida. Flertei com outras denominações, mas sempre mantive a criação batista firme. Foram mais de dez anos de prática religiosa a qual deu-se por encerrada no início de minha vida adulta.

Coincidentemente – ou não – meu afastamento da religião ganhou força com o início da minha vida no ensino superior. Alguns dirão que uma coisa levou a outra e talvez – mas só talvez – tenham razão. A verdade (verdade para mim), no entanto, é que meu afastamento começara muitos anos antes, já no meio de minha adolescência, envolto de dúvidas sobre sexualidade e perdão divino.

Não, o fato de eu ser gay não foi determinante para que minha descrença ganhasse corpo e voz. Ainda que, por outro lado, isso tenha, de fato, servido para me afastar da moral e dos bons (e questionáveis) costumes da religião.

O que ocorre é que, por uma série de fatores, a própria religião cristã acabou fundamentando o ateísmo em mim. Desde minha adolescência me vi com dúvidas demais, questionador demais. E isso, dentro do ambiente da igreja, é algo que não é exatamente bem visto. Nos estudos da bíblia, sempre ocorria de eu notar algo que contradizia outros trechos do próprio livro “sagrado” e, por isso, perdia um bom tempo debatendo com outras pessoas sobre essas inconsistências, quase sempre, sem respostas.

A fé não foi feita para os céticos, essa é uma verdade que aprendi entre idas e vindas na igreja. Questionar é colocar a autoridade de deus à prova e, por extensão, colocar o próprio deus à prova. Como deus nunca responde, o que sobra é um vazio irresoluto.

A moral de deus não é uma coisa que faça muito sentido, nem para seus asseclas, diga-se de passagem. E, ainda que tentem me mostrar que o entendimento de deus excede a sabedoria humana, a única coisa que verei sempre é que esse tal entendimento só excede o conhecimento humano porque é imoral. Se deus existe, ele simplesmente não se importa.

O ateísmo me trouxe paz, uma paz que eu não tinha enquanto crédulo. Contudo, isso não quer dizer que tornei-me perseguidor das religiões, pelo contrário, valorizo tudo que, de alguma forma, eleve o ser humano, tornando-o mais justo e digno. Todavia, a religião não me serve, pelo menos não hoje. Posso mudar, um dia? Sim, claro que posso. Hoje, porém, eu durmo crendo que a vida é o aqui e agora, que deus está dentro de nós e ao nosso redor. Esse deus é a natureza, o universo, a matéria que permeia todas as coisas, os átomos que formam todos os seres vivos, é o pó das estrelas, é tudo o que vemos e o que não vemos. Deus somos nós e, do mesmo modo, o diabo também. Nós somos os responsáveis pelo bem e pelo mal, por aquilo que fazemos e o que deixamos de fazer. E, neste sentido, somos apenas passageiros deste mundo onde, no fim de nossas vidas, encerraremos um ciclo para começar outro em outra forma. Nós morremos para que outros vivam através de nós, morremos para que a natureza se renove e assim, sucessivamente até o fim dos últimos dias.

Até a próxima.

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

Entre o ontem e o amanhã sou o hoje.

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