Escoliótico

Por mais irônico que pareça, é na dor que tenho minhas melhores ideias, é na dor que minha mente se torna mais criatíva, crítica e analítica. Eu gostaria muito de não sentir dor todos os dias, (…) mas me pergunto como seria minha vida sem isso.

escoliose coluna desvio

As curvas de meu corpo expõem os percalços de minha vida. Não são curvas de um corpo saudável e definido. São curvas de um corpo mal fabricado e ferido. Minhas curvas não me causam encanto nem contemplação, mas antes, dor e reflexão. Sim, reflexão porque, na dor, minha mente procura qualquer ópio que a faça se distrair da realidade doída de um corpo com curvas demais.

Eu tenho escoliose. Isso poderia ser mero detalhe entre tantas outras coisas que fazem de mim, eu. Mas, a escoliose definiu grande parte de minha vida e, por extensão, grande parte de quem eu sou. Se se avaliar a predominância de escoliose na sociedade, se verá que ela tem um valor considerável; grande parte das pessoas tem algum grau de desvio na coluna, seja escoliose ou outro. Eu tenho um desvio misto cujo termo técnico apropriado é cifoescoliose, mas, para resumir, chamo só de escoliose mesmo.

Escoliose é um desvio lateral da coluna em que as vértebras vão se acomodando fora do eixo central da coluna vertebral, algo similar à nossa posição quando nos apoiamos de lado numa mesa. Na escoliose, além das vértebras se desviarem para o lado, elas podem sofrer rotações sobre o próprio eixo, assim criando um desvio duplo. A escoliose, em geral, é o mais grave dos desvios porque pode comprometer órgãos internos como coração e pulmões, além dos órgãos da cavidade abdominal. Em casos graves, a única opção para o seu tratamento é uma intervenção cirúrgica que costuma durar mais de 12 horas e inclui colocar pinos de titânio em sua coluna para estabilizar o desvio.

Eu tenho escoliose desde os 11 anos (tenho 28 no momento em que escrevo este texto). Atualmente, meu desvio comprometeu a função de meu pulmão direito de modo que já não o uso. É como se minha coluna tivesse saído tanto do lugar que ela se apoiou sobre o pulmão, tirando sua capacidade de se expandir e contrair, algo fundamental para que ele respire. Se ele funciona, é algo que não sei ao certo, os médicos dizem que sua participação é bem pouca, então respiro somente com o pulmão esquerdo.

Escoliose é um troço estranho. Eu sempre soube que havia algo diferente com minhas costas, mesmo sem saber exatamente o que. Veja bem, além disso, eu tenho outras estranhezas físicas decorrentes, em grande parte, de minha genética defeituosa (você pode saber um pouco mais sobre isso clicando aqui!), então, uma estranheza a mais não era algo que me chamasse muito a atenção. Porém, quando saía com meus amigos da escola, vez ou outra alguém comentava “Pedro, tá nascendo uma asa nas suas costas” e isso me soava, ao mesmo tempo, engraçado e um pouco incômodo. Anos depois, descobri que o que meus amigos chamavam de “asa” era, na verdade, um dos primeiros sinais da escoliose que, nos anos seguintes, só viria a piorar.

Nós temos um par de ossos nas costas chamados omoplata (antigamente, chamavam-no de escápulas). Quando você desenvolve escoliose, uma das omoplatas tende a ficar mais exposta enquanto a outra tende a se esconder. Isso dá o aspecto de que está nascendo uma ponta de asa nas suas costas, mas é só sua coluna começando um desvio. Isso foi o início de minha jornada para controlar ou reverter a escoliose. Nunca deu certo. Para além do desvio em si, muitos outros problemas surgiram no meio do caminho, incluindo médicos que o tratavam errado, dinheiro perdido em tratamentos que só fizeram piorar o problema. Enfim, o fato é que tudo isso me levou ao ponto atual em que estou: uma coluna torta, um pulmão perdido, dores constantes e esse blog.

Ter escoliose de alto grau como a minha (na última avaliação, tinha 85° de desvio na escala de Kobb) significa viver 24 horas do dia com dor. Eu vivo isso desde meus 11 anos e vou fazer 29 em breve, então são 18 anos vivendo assim. A escoliose é algo que, nos dias piores, te suga toda a vontade de viver não só por conta da dor, mas da falta de ar constante, da perda do seu centro de gravidade, sua coordenação motora bugada, a pisada em falso. Nos dias menos ruins, você quase se esquece de tudo isso, até que você tem de se sentar em alguma cadeira e suas costas não encontram apoio. Se você vai se deitar, parece que você está sempre de lado. Suas blusas ficam deformadas por conta da corcunda e se olhar no espelho vira uma espécie de tortura psicológica porque, bom, tá tudo fora do lugar.

A escoliose começa invisível e, na maior parte do tempo, mesmo em casos mais graves, ela continua invisível para a maior parte da população. Mas, para os escolióticos, ela é uma constante, é a lembrança de que seu corpo fez algo que não deveria fazer. Hoje, eu sinto minhas costelas se apoiarem sobre o baço, no lado esquerdo. Sinto-as querendo sair de meu corpo no lado direito, sinto meu diafragma sempre exausto, sempre além de si. Mas, acreditem ou não, eu me acostumei a isso. Depois de tantos anos, acho que desenvolvi alguma espécie de estado zen às avessas porque, sinceramente, cansa demais isso tudo. Eu poderia passar meus dias sofrendo e lamuriando-me sobre como sinto dor, sobre como não consigo respirar, mas não é isso que quero para mim. Como tudo na vida, vejo que existem sempre duas opções: ou você se entrega ou você luta. Não posso lutar contra a escoliose e, de repente, curá-la, mas isso não significa que eu tenho que deixá-la transformar minha vida num inferno. Se o mal existe, que ele sirva ao bem.

Durante todos esses anos, a dor sempre me serviu de inspiração, inspiração para a vida, inspiração para escrever, inspiração para tudo. Por mais irônico que pareça, é na dor que tenho minhas melhores ideias, é na dor que minha mente se torna mais criatíva, crítica e analítica. Eu gostaria muito de não sentir dor todos os dias, de não ter esse desvio em minhas costas, mas me pergunto sempre como seria minha vida sem isso, se eu seria como sou hoje, se teria os mesmos pensamentos, ideias e filosofias. Por mais ruim que isso tudo tenha sido, parte de quem eu sou hoje é resultado das experiências que vivi, incluindo minha vida com escoliose. É um mal que serviu ao bem, mesmo que de forma tão desgastante.

Grande abraço.

Até a próxima.

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

Entre o ontem e o amanhã sou o hoje.

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