Eu tinha entre 6 e 7 anos quando tudo aconteceu. Na época, estava na primeira série do ensino fundamental, hoje chamada de 2º ano do EF. Até onde me lembro, eu era uma criança comum, gostava de estudar, era sociável. Obviamente, eu não tinha vivido muito do mundo para saber que as pessoas podem ser más, que elas podem reagir com hostilidade diante daquilo que lhes é diferente. Do mesmo modo, não havia vivido o suficiente para entender que, nem sempre, as pessoas são más por vontade própria, mas por medo, medo de encarar a realidade.
E a realidade é que as pessoas são sim, diferentes. Essa ideia de que somos todos iguais, por mais bonita que seja, tem um viés muito excludente e até alienador. Se há algo em nós que nos torna iguais em algum nível, é o fato de que não somos, de fato, iguais. Isso é o princípio básico para nos entendermos e nos respeitarmos.
Nunca fui uma criança saudável. Minha biologia, como já escrevi outras vezes aqui no blog, me fez nascer e viver com vários problemas de saúde. Contudo, isso nunca foi um impecilho total para eu viver. Pelo contrário, vivi bem e tudo o que, dentro do possível, queria viver. Apesar de meu corpo frágil, minha mente sempre foi um tanto forte e desenvolvida. Não à toa, sempre fui considerado um estudante exemplar. Lia muito e estudava razoavelmente. Minha vida escolar era tranquila até 1996.
1996 foi o ano em que conheci a Professora (não darei seu nome por motivos óbvios). A Professora era uma mulher um pouco alta, magra e de olhar sério. Suspeito de que, antes daquilo, tenha sido uma boa profissional. Todavia, nos meses em que compartilhamos a sala de aula, as lembranças que tenho dela não são nada positivas. Eu sabia que ela tinha um filho que, como eu, nascera com vários problemas de saúde também. Boatos diziam que ela projetava em mim sua frustração por ter um filho problemático. Se isso era verdade, nunca saberei. O fato é que, naquele ano, ela parece ter visto em mim um alvo para descontar sua raiva pelo que quer que seja. Ela, uma mulher adulta. Eu, um aluno com 6 anos de idade. Ela nunca me bateu, mas a forma como ela se dirigia a mim marcou mais do que um tapa em minha face. De repente, o prazer em estudar, em ir a escola deixou de ser uma realidade e deu lugar ao medo de entrar na sala de aula e encarar mais um dia com a Professora.
A Professora era uma mulher de poucas palavras, mas as poucas palavras que diriga a mim eram sempre “para me por em meu lugar”. Não me deixava falar, não me deixava ir ao banheiro, não me deixava pegar uma borracha que tivesse caído ao chão. A Professora era severa, raivosa, sempre tensa, nunca sorria. Quanto a mim, o medo de respirar me fazia querer me esconder, sumir daquele lugar, encontrar algum abrigo que me protegesse dela. Ela, que deveria ser, de algum modo, minha segurança na sala de aula, virou meu algoz, meu pesadelo. E isso, de certo modo, servia para legitimar aos outros alunos a escolha de me deixar isolado dentro daquele espaço. Afinal, se nem a professora me via bem, por que diabos os outros me veriam? A Professora me destruiu.
Com 6 anos de idade, eu conheci a maldade, a maldade de uma professora que deveria ser o exato oposto. Eu não era uma criança com muitos gostos, mas estudar era e sempre foi algo muito importante para mim. Mas ela, com sua atitude pra lá de incompreensível, tirou isso de mim, expurgou de minha mente todo o prazer que tinha em ler, em aprender, em ir à escola. Naquele momento, eu sinto como se tivesse sido castrado.
Minha família percebeu que havia algo acontecendo. A escola percebeu. Não tardou muito para que algo fosse feito a respeito. Fui transferido de turno e turma, a Professora foi demitida e nunca mais tive contato com ela (apesar de passar todo dia em frente a sua casa, no caminho para escola). Entretanto, o estrago já havia sido feito, eu não era mais o mesmo, não era mais o Pedro de antes. Quem deveria ser um exemplo de segurança, destruiu todas as bases que me permitiam ver a vida com esperança. Desde então, o medo de lidar com os outros, o medo de me expor, de me mostrar, de existir se tornou uma constante amarga em minha vida. Por anos, tive de viver em sessões de psicologia, terapias em grupo para tentar recuperar ao menos um pouco do que havia perdido. O suporte de minha família e da escola foram imensuravelmente importantes para que, na medida do possível, eu pudesse superar aquilo tudo, mesmo que alguns danos jamais tenham sido desfeitos.
Eu vivi e sobrevivi ao bullying com o apoio de muita gente, em especial, de minha mãe. Mas, vivi isso (o bullying) tendo como algoz alguém que, dentro daquele contexto, deveria ser sinônimo de segurança. Sempre pensamos no bullying como algo entre crianças e adolescentes. Tendemos a ignorar a mínima possibilidade de que os adultos também podem praticá-lo. E isso, com o perdão da palavra, é foda. No meu caso, a Professora, enquanto figura de autoridade na sala de aula, dava permissão para que outras pessoas fizessem o mesmo comigo. E ainda que os outros alunos não me agredissem de alguma forma, eles também não falavam ou interagiam comigo porque isso era sinônimo de levar bronca pelo simples fato de falar comigo. Eu estava só.
Muitos anos depois, nas idas e vindas da vida, a Professora se encontrou com minha mãe na rua. Ela se desculpou, se disse profundamente arrependida e todo aquele blablabla que rola nessas situações. De certo modo, até achei legal que ela tenha feito isso, mas e eu? Ela nunca me procurou, mesmo que já tivéssemos esbarrado na rua. Ela nunca chegou a mim e veio me pedir desculpas ou sequer explicar o porquê daquilo tudo. Ela me destruiu, me transformou e me transtornou em troca de que? Por que? Se sinto raiva? Às vezes, sim. Na maior parte do tempo, quando penso no assunto, só fico a me perguntar por quê. Eu queria que ela falasse comigo, eu a ouviria sem hesitar e, de certo modo, isso me serviria para encerrar de vez esse episódio de minha vida.
Enquanto isso não acontece, eu sigo minha vida, um dia de cada vez. O bullying é algo que me transformou e que poderia ter feito pior se eu não tivesse todo um suporte familiar que nunca deixou de existir para mim. MInha família foi meu apoio e graças a ela a escola se envolveu nisso e me ajudou a superar essa experiência. Mas, e quem não tem isso? E quem tem de viver um dia após o outro sofrendo agtressões físicas, verbais e morais de alunos ou até mesmo, outros professores? Por mais que o que eu tenha vivido tenha sido extremamente ruim, tenho plena noção também de que o apoio que tive não é uma realidade em nosso país. Não por acaso, há tantas histórias de suicídio infanto-juvenil envolvendo bullying.
O bullying precisa ser combatido por todos nós, desde dentro de nossas casas às salas de aula e escritórios de trabalho. O bullying não é um problema só escolar, ele atinge a nós em todos os níveis, mesmo em ambientes onde se imagina que isso nunca aconteceria. Porém, o bullying existe pelo e a partir do medo, pela aversão ao diferente e tudo aquilo que foge ao nosso padrão. Entender aquilo que difere de nós é o primeiro passo para uma sociedade mais justa e respeitosa. O bullying existe para nos isolar, nos jogar para o canto e nos dizer que estamos sós. Mas, não estamos sós. Mesmo na dor, há alguém em algum canto que nos olha. O bullying pretende nos calar e é por isso que devemos gritar, explodir nossos pulmões e mostrar que nós estamos aqui, nós existimos, nós somos alguém e temos sentimentos também.
O bullying precisa parar.
Créditos da imagem e do vídeo nesta publicação:
Segundo episódio da série-documentário Faces: como eu sobrevivi ao bullying. Este episódio conta a minha história e foi ao ar no Canal Futura, no dia 29/05/2018, com reprise no dia 01/06/2018.
A série foi produzida pela Cajamanga e é um projeto de parceria entre o Futura e a emissora japonesa NHK WORLD-JAPAN!
Link original: https://goo.gl/7Lm8hg
Faces: como eu sobrevivi ao bullying.
Direção: Estevão Meneguzzo e Diego Quindere de Carvalho
Personagem: Pedro H. C. de Sousa
Produção: Breno Soares e Lucia Possas
Diretor de Fotografia: Tiago Rios
Direção de Arte e Figurino: Laércio Ribeiro e Ricardo Vieira
Som: Mino Alencar
Platô: Marcelo Melo