Da religião e sua luta contra a natureza humana

Aquela história de que o maior inimigo do homem é ele mesmo se encaixa bem aqui, mas com uma pequena adaptação: o maior inimigo do crente é sua mente.

homem vitruviano leonardo davinci

O ser humano é falho por natureza e isso tanto biologicamente como, mais importante aqui, moralmente. Talvez por consciência de sua natureza errante, o homem sempre tenha procurado alguma coisa que lhe desse uma “essência mais pura”, mesmo que nada disso fizesse sentido num olhar mais profundo. Vive-se querendo justificar os próprios erros quase que numa tentativa inconsciente de nos devolver a inocência de nossa infância. Mas, não é bem assim que as coisas são.

Neste sentido, as religiões têm um papel importante e interessante na formação da moral humana. Não por acaso, a história da humanidade é repleta de períodos em que suas sociedades se viram regidas por princípios de base religiosa. Não por acaso (outra vez), esses períodos foram marcados por grandes contraditoriedades e controvérsias apoiadas, quase sempre, na questão: se é deus quem nos governa, por que existem tantas injustiças.

Se o homem é falho, tudo o que ele constrói e/ou cria tende a sê-lo também. Não que essa seja a melhor das generalizações, mas funciona em grande parte dos casos. Como a religião tenta nos dar um caráter mais divino e perfeito, isso entra em choque com nossa realidade carnal e errante. Logo, uma das bases de todas as religiões é a luta contra a realidade, em outras palavras, a negação da realidade. Alguns cultos fazem isso de forma mais implícita, outros mais explicitamente, mas todos, sem exceção, buscam distrair o homem da verdade inegável: você falhará em algum momento.

No cristianismo, essa busca pela perfeição chega a ser bastante contraditória. Fala-se muito que fomos feitos à imagem e semelhança de deus, mas ao mesmo tempo, nega-se a parte humana que faz de nós, homens e mulheres. A luta contra o pecado, contra os desejos e tudo mais leva a um estado de vigília constante no qual você se vê refèm de si mesmo, escravo de um desejo insano de negar a própria humanidade. Vive-se para não errar, mas acaba-se errando mais do que se não houvesse essa preocupação. Aquela história de que o maior inimigo do homem é ele mesmo se encaixa bem aqui, mas com uma pequena adaptação: o maior inimigo do crente é sua mente.

Não estou insinuando que devemos dar vazão a todos os nossos desejos, afinal, nem todos os nossos desejos devem ser saciados também. E não estou dizendo também que devemos abolir a religião de nossas vidas. Minha relação com o cristianismo foi cheia de muitos conflitos com os quais cheguei à conclusão de que a religião não servia para mim. Ainda que o advento do Cristo tenha dado uma nova cara a religião, tudo ainda se resumia a uma busca por uma perfeição inalcançável seguida de um negacionismo de nossa natureza. Sempre vi muita depreciação do homem no cristianismo, o que nunca fez sentido para mim. Oras, se somos feitos à semelhança de deus, o que há de tão ruim em nós que devemos obliterar de nossas vidas?

Os amigos cristãos talvez me questionem uma coisa ou outra e falem que não estou vendo todo o contexto e tal, mas não se esqueçam de que a salvação pós-apocalipse inclui uma deleção de nossos corpos e mentes. Ou seja, para sermos salvos, será preciso deixarmos de ser o que e quem somos. Se isso não é morrer, eu não sei o que é.

Óbvio que muitas pessoas encontram e encontrarão consolo na religião. A elas, desejo bom proveito, mas desejo também um pouco de pensamento crítico. Se há uma passagem bíblica bastante conveniente aqui é aquela em que Paulo diz “tudo me convém, mas nem tudo me é lícito”. Isso não deveria valer só para as “coisas do mundo” (uma expressão, aliás, que acho sem sentido), mas para a religião e seus dogmas também. Questionar não deveria ser um pecado. Buscar respostas deveria ser um princípio básico. Por que há tanto medo no questionamento, em quebrar paradigmas e reformular conceitos obsoletos? Os últimos anos tem sido intensos, cheios de mudanças sociais e comportamentais. A cada dia parece se intensificar mais e mais esse debate entre valores tradicionais e valores progressistas. O homem é reflexo do meio assim como o meio é reflexo do homem, não à toa vivenciamos tantos conflitos.

Eu abdiquei da religião não por simples questão de crença, mas porque a religião me limitava, contraía minha mente, não admitia as questões que carregava (e ainda carrego) dentro de mim. Além disso, tinha a questão pessoal, minha identidade, aquilo que sou e quem eu sou. Vivi por anos tentando combater meus desejos e sentimentos porque a religião me dizia que eles eram errados, que eu era errado. Dizia que se eu crisse bastante, deus me ajudaria e expurgaria de mim esses desejos desvirtuosos. E eu cri, acreditem, cri muito, passei noites acordado perguntando-me por que deus não me ajudava, por que ele não me fazia mudar, sentir algo diferente ou não sentir nada. No fim, tive de enfrentar família e amigos, tive de encarar uma época marcada por brigas constantes, desprezo e falta de aceitação até que, no fim, decidi que não seria mais assim. Muitos anos se passaram, desde então, a vida melhorou aqui, piorou ali, mas hoje eu sei quem eu sou – pelo menos em parte. Entendi o ser humano que sou, cheio de erros e imperfeições e tento, na medida do possível, lidar bem com isso. Não é uma tarefa fácil, mas isso não me preocupa.

Até a próxima.

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

Entre o ontem e o amanhã sou o hoje.

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