Havia um corpo jogado na rua

“A verdade é que aquele corpo não era só um corpo (…) E se aquele corpo era a expressão física de nosso espírito, não é preciso dizer muito para entender o que aquilo representa.”

um corpo jogado na rua

Havia um corpo jogado na rua.

Ele apareceu lá, sem ninguém ver, nem saber de onde veio. Simplesmente apareceu jogado na rua tal qual um trapo velho do qual alguém se desfez depois de muito uso. Aquele corpo estava jogado na rua e, aparentemente, ninguém se deu conta disso. Ele estava ali, jogado, estatelado no chão, indigente e, de certo modo, indigesto. Era um corpo e ele estava jogado na rua.

Era um corpo preto, escuro, quase da cor do asfalto. Ao mesmo tempo, se você fixasse bem os olhos sobre ele, era um corpo branco, sem cor, quase como se estivesse por fazer. Era um corpo irreconhecível, mas ao mesmo tempo, um reflexo de todos nós. As pessoas poderiam até ignorá-lo, mas no fundo sabiam – todos sabíamos – que aquele corpo era nosso, era o nosso corpo.

Aquele corpo jogado na rua chegou entre uma terça e quarta-feira de uma semana de outubro. Chegou e ficou, ninguém mexeu, ninguém ousou chegar perto e ver como era aquele corpo, de quem era aquele corpo que, mesmo sendo nosso, era de todos nós ao mesmo tempo. O corpo ficou lá, lançado ao chão, indefinidamente até que, a certa altura, nos acostumamos a ele e ele se tornou invisível. O corpo ainda estava lá, mas depois de tanto tempo, era como se não estivesse, ou tivesse se tornado algo tão comum que já não nos espantávamos mais com o fato de que, depois de tanto tempo, ainda havia um corpo jogado na rua.

E o corpo não apodrecia, não se desfazia, continuava como sempre esteve, como se tivesse, um dia após o outro, sendo jogado de novo e de novo naquela rua. As mesmas marcas no pulso, os mesmos braços estendidos sem vida, as pernas esticadas como num susto, o rosto inexpressivo contra o chão como se evitasse ver as coisas ao redor. O corpo estava lá e nós seguíamos ao redor e sobre ele. Não nos espantava, não nos surpreendia. Era um corpo e ninguém mexia, ninguém sequer sabia se estava vivo ou morto, se aquele corpo tinha um nome ou família. Era mais um corpo e, depois de mais um dia, era só um corpo.

Confesso, aquele corpo me aturdia. Mas, tal como os outros, não me arriscava a interagir com ele, a virar seu rosto e olhar em seus olhos possivelmente sem vida. Aquele corpo que, sequer se mexia, me deixava incomodado, agoniado e, de certo modo, curioso. Um corpo, qualquer corpo, naquelas condições, se vivo, já teria saído dali, já teria mudado, teria, pelo menos, se mexido. Um corpo, se morto, teria apodrecido, fedido e incomodado com seu cheiro, atraído as pragas do esgoto, empesteado a vizinhança com seu odor pútrido. Mas, aquele corpo nada fazia e, por nada fazer, movia toda a realidade ao seu redor.

Então, certo dia, inesperadamente, aquele corpo já não estava mais jogado naquela rua. Nem vivo, nem morto, ele já não estava em lugar algum. Sumira como aparecera. Abrupto, sem ninguém ver ou ouvir. Aquele corpo desaparecera e levara consigo todas as possibilidades, todas as histórias que poderiam existir em torno daquele corpo. Todas as respostas que eu esperava se foram com aquele corpo. As pessoas seguiam como se nunca tivesse havido um corpo e, talvez, nunca tivesse existido mesmo. Ou o que existiu foi o absurdo de nossos dias ganhando a forma e a cor – ou as cores – daquilo que tanto escondemos, da verdade que insistimos em manter oculta do mundo.

A verdade – se é que há uma – é que aquele corpo não era só um corpo, não era alguém que fugiu de casa, sem rumo e, de repente, morreu jogado na rua. Aquele corpo, ainda que fosse nosso e o nosso corpo, representava mais que isso. E se aquele corpo era a expressão física de nosso espírito, não é preciso dizer muito para entender o que aquilo representa.

Nós desistimos, entregamos os pontos, abrimos mão de tudo. Nós nos deixamos cair, sermos jogados sobre uma rua qualquer. Deixamos que pisassem em nós, que nos usassem como asfalto. Aquele corpo é a expressão de quem desistiu da vida, do mundo, da sociedade, do outro. Expressão de quem desistiu de si e não tem mais força para se levantar ou mesmo virar o rosto e olhar ao redor. Ao mesmo tempo, as pessoas ao redor e sobre aquele corpo representam o lado mais sombrio de nós, pois reconhecemos nossa fraqueza, nosso elo fraco e o vemos no outro o que deveria permitir nos aproximarmos, afinal, partilhamos do mesmo sentimento. Mas, contraditoriamente, decidimos ignorar isso, ignorar que estamos todos doentes e fracos, que estamos todos desistindo da vida. Decidimos negar a realidade do outro quase que numa tentativa desesperada de negar a própria.

Aquele corpo segue em algum lugar, talvez jogado em outra rua, esperando que alguém o mova e lhe ajeite ou que o ajude a se levantar e, quem sabe, a não desistir. Resta saber se haverá uma história para contar ou se esse corpo terminará como tudo tem sido terminado.

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

Entre o ontem e o amanhã sou o hoje.

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