Uma vez, uma amiga com quem eu compartilhava um estágio questionou-me o fato de eu dizer que eu sou surdo. Segundo ela, eu “não sou” surdo, eu “estou” surdo. Eu entendi seu ponto e, de certo modo, até concordo com ele. Todavia, parece-me que ela não foi capaz de entender o meu, o fato de que, para mim, a surdez sempre foi algo mais do que mera deficiência, mas algo que determinou profundamente características que, hoje, marcam minha personalidade.
Ser surdo e estar surdo são coisas distintas, apesar de relacionadas. Num sentido geral, “ser” tem a ver com quem você é, é algo difícil de ser mudado e que, por isso mesmo, tem tanto peso em nossas individualidades. “Estar” está mais atrelado a uma condição que pode ou não ser passageira e que não necessariamente é algo que você sempre teve, mas pode ter adquirido num dado momento, por “n” motivos. Aqui é onde se chega a conclusão de que a surdez é algo um tanto ambíguo, pois ela tanto pode ser como pode estar. Sendo mais claro, uma pessoa pode nascer surda ou se tornar surda. Nascer e se tornar são, mais uma vez, coisas distintas no universo da surdez e que interferem diretamente no modo com que uma pessoa interage com a realidade.
Eu não nasci surdo. Até meus 11 anos, minha audição era relativamente normal. Desde então, ela foi piorando até o ponto em que não consigo mais ouvir sem o auxílio de próteses auditivas. No momento em que escrevo isso, tenho 29 anos, já se passaram cerca de 18 anos desde que minha novela surda começou. A maior parte de minha vida foi marcada por isso, pela perda do ouvir, pela incapacidade de tocar um instrumento musical por não mais reconhecer seus acordes, por não conseguir ter uma conversa razoável ou dar aulas. Ao mesmo tempo, essa parte de minha vida foi marcada positivamente pelo reencontro com minha voz quando usei meu primeiro aparelho auditivo e o choque com a voz grossa e retumbante que saía de minha boca. Eu não me reconheci nesse momento, precisei de alguns segundos para assimilar que a voz que eu ouvia era a minha, pois há muito tempo eu não a ouvia bem.
Voltar a ouvir, ainda que não perfeitamente e com auxílio de próteses, me fez encarar a surdez com outros olhos. Fez-me perceber, principalmente, como o mundo é barulhento e demasiadamente cheio de informação. A contradição de minha vida foi perceber que, num mundo de pessoas com ouvidos saudáveis, ninguém se ouve de fato. Todos falam, mas ninguém se entende, ninguém se sente e sente o outro.
Ouvir me fez apreciar a surdez. E foi assim que o estar surdo se transformou em ser surdo. Eu gosto de ouvir, gosto de conversar, ensinar, cantar e tocar violão. Gosto, especialmente, de ouvir o som da natureza, das cigarras no fim do dia, o barulho do vento, das ondas do mar. Mas, gosto do silêncio também, de como minha mente parece se acalmar quando nenhum som me incomoda e de como o mundo parece um lugar mais calmo quando ninguém se ouve. O som dos metais, dos passos apressados, das buzinas e sirenes na cidade, a gritaria dos vendedores, o apito dos trens e metrôs, essa balbúrdia altissonante e constante que retumba por todos os cantos da cidade. Como se pode viver com isso? Como se pode existir com isso? Lembra-se das cigarras que mencionei ainda a pouco? Quando foi a última vez que você pôde ouvir uma cigarra cantar? Quando foi a última vez que você ouviu o vento flutuar entre as folhas das grandes árvores? Quando foi que você parou para ouvir sua própria respiração? O mundo moderno nos tornou surdos e essa é uma surdez mais profunda e transgressora do que a surdez que carrego em mim. Nós somos surdos para o outro, para o mundo e para nós mesmos. Num mundo em que tudo é informação, não há espaço para ouvir o que há nos espaços vazios.
Estão todos surdos.
*Imagem destacada obtida na internet.
Uma consideração sobre “Surdez”