Eu acho engraçado que, em pleno ano 2019, tomar banho de balde seja uma prática ainda comum (ou o é apenas em meu universo particular, vá saber). Abrir a caixa d’água, pegar o canecão, transferir a água para o balde, depois levá-lo ao banheiro e, enfim, tomar o merecido banho. Parece trabalhoso, eu sei, e é, de fato, mas o banho de balde é, por assim dizer, um ritual, um misto de lavação do corpo e da alma que só quem passa por ele entende o que significa tomar um bom banho de balde.
Mas, para além de toda a questão espirituosa de se tomar banho de balde, existe um fato a mais a acrescentar: é verão no Rio de Janeiro, onde moro. Aqui, as águas que caem dos chuveiros parecem estar permanentemente em modo inverno e não, não há o que fazer porque, vejam bem, a Cidade Maravilhosa foi abençoada com uma “excelentíssima” posição geográfica que a coloca bem no meio do olho do cu de Satanás. Então, verão no Rio de Janeiro não é verão, é um preparativo para o inferno.
E aí, surge o banho de balde porque toda casa de família que se preze (pelo menos aquelas menos abastadas como a minha) tem uma caixa d’água reserva que fica protegida do olho de Satanás. E aí, meu irmão, é encher o balde e se refrescar.
Mas, como disse antes, banho de balde é, também, um ritual. É encarar aquele espelho d’água que te reflete e se reflete, que te encara de volta e te leva a um abismo sem fim de reflexões sobre a vida, a morte e, é claro, as contas a pagar. Porque quem toma banho de balde, vai por mim, tem muita conta a pagar. O banho de balde te força a pensar mais lentamente, devagar, respirar mais fundo, ver as coisas com mais calma. É tudo tão trabalhoso que, afinal, se você não desfrutar aqueles poucos minutos daquela água fresca (ou, num dia de sorte, até gelada), o trabalho foi em vão.
Foi num banho de balde que me vi refletindo sobre minha vida atual. E, caralhos, as coisas são fodas. Você acorda cedo (de madrugada, às vezes), encara um transporte público de merda por 2, 3 horas, chega num trabalho que não é lá grandes coisas, mas paga tuas contas, atende uma penca de cliente chato que só sabe reclamar, cobrar e fazer merda. Encerrou expediente? Mais 2 ou 3 horas de viagem para casa. E digo viagem porque Avenida Brasil na hora do rush é uma viagem. Chega em casa, engole comida, toma um banho mais ou menos e capota na cama para repetir tudo de novo no dia seguinte. Se isso é o que chamamos de vida, meu irmão, a vida é uma merda.
Eu descobri, recentemente, que desenvolvi algo chamado “transtorno de ansiedade generalizada com picos de ataque de pânico”. Poderíamos abreviar para TAGPAP, mas parece nome de loja de conveniência. Basicamente, minha mente me sabota de tal maneira que me vejo afligido por algum risco iminente sem que haja um risco de fato. É como se houvessem monstros me atacando, mas eles só existem no mundo da imaginação. O problema, meus queridos, é que quando seu maior inimigo é a sua mente, seus maiores pesadelos viram companhias constantes.
Meu primeiro surto de pânico foi numa dessas 2 ou 3h de viagem do trabalho a minha casa. No meio do trem, Japeri lotado, todo mundo se espremendo para caber num lugar que, há muito, já havia extrapolado as leis do espaço-tempo. Desde então, tive outros ataques, a maioria durante meu trabalho. Nunca falei disso com ninguém de lá. E é estranho falar, sabe por que? Porque, mesmo num mundo onde tomar banho de balde é uma realidade plausível e aceitável, falar de doenças mentais ainda é um tabu.
Eu tenho uma doença mental e ela me debilitou. Hoje, cada dia é um dia a mais que eu consegui superar. Mas, o dia de amanhã é sempre aquele dia em que minha cabeça pode não suportar a pressão, os remédios não fazerem efeitos e eu simplesmente surtar de novo. Mas, o pior é imaginar que não estou sozinho nessa. Eu falei com um amigo, ele vive a mesma coisa todos os dias. Todos os dias, ele sofre, mas ninguém sabe, ninguém percebe, ninguém sequer se interessa. Vivemos nessa sociedade em que “vivemos para trabalhar”, para produzir e bater metas, para atuar em empregos de que não gostamos, como diria um certo filme, para no fim, adoecermos todos.
Eu estou doente e me dói pra caralho dizer isso. Dói-me porque, aos 29 anos, eu esperava que minha cabeça (que nunca teve esse tipo de problema antes) fosse pelo menos a última coisa saudável em mim, porque o resto (ou a maioria) tá bem fodida. Mas, é isso, irmãos, eu estou doente. Estou me tratando, é claro, não sou doido (com o perdão do trocadilho). Mas, e você? Como anda sua cabecinha? Já procurou alguém para conversar hoje? E o seu trabalho? Você gosta do que faz? Se sente satisfeito fazendo o que lhe pagam para fazer? Se a resposta a qualquer uma dessas perguntas (ou todas elas) for não, sinto que temos problemas.
Até a próxima.