Enquanto escrevo, Muddy Waters toca na caixa de som. Hoje é mais um daqueles dias morosos, meio sem sal, um céu nublado, ameaçando chover, mas sem lançar uma só gota ao chão. Intercalado com o som da música, ouço os sons da vida fora das paredes de meu quarto. Lá fora, as crianças correm, brincam e gritam, felizes sem se dar conta de quão absurda pode ser a vida. Aqui dentro, escrevo coisas pouco otimistas sobre uma vida que não queria que fosse a minha, mas é.
Não sou grande conhecedor de música e isso, em parte, é culpa tanto da surdez quanto da falta de vontade e disposição para procurar uma playlist nova. As músicas que ouço hoje são as mesmas que eu ouvia há dez anos e são, por extensão, basicamente as mesmas que eu ouvia antes disso. No entanto, apesar da quase nula atualização em minha lista de músicas, elas são, em todos os momentos, as músicas que marcaram minha vida de algum modo ou, de outra maneira, músicas que despertam sentimentos diversos em mim.
Muddy Waters é um clássico para mim. Conheci numa de minhas andanças por São Paulo, mais especificamente, na tão famosa Galeria do Rock. Estava, àquela época, a procura de um som novo e, como sempre me interessei por blues, essa busca me levou ao Waters e, desde então, ele se tornou um disco arranhado de tanto ouvi-lo. Isso foi, provavelmente, em 2008 ou 2009 e, naquele tempo, eu sequer imaginava que seria o cara que sou hoje. Na verdade, imaginava bem poucas coisas sobre meu futuro porque, naquele momento, eu não via um futuro muito distante para mim.
Imediatismo sempre foi uma constante em e para mim. Não que eu seja relapso ao ponto de não pensar em meu futuro, eu só não me importava. Posso dizer que a vida fez o trabalho de mudar isso. O Pedro que eu era em 2009 era um Pedro muito diferente de quem eu sou hoje. Por um lado, sinto saudades dele, por outro, não sei bem se eu gostaria de voltar a sê-lo. A vida acontece no exato momento em que as coisas ocorrem, todas elas. A ilusão de que existe um futuro, apesar de tentadora, não deixa de ser uma ilusão. Não há futuro, há o presente e este dura uma fração infinitesimal de tempo. Há a lembrança e podemos chamá-la de passado. Mas o futuro? Ele é só uma miragem daquilo que podemos ter e ser. Sua vida pode acabar bem antes disso, por exemplo, agora.
Não, a vida não faz sentido. Mas, ilusão de que existe um sentido sobre todas as coisas, faz, porque é essa ilusão que nos move, que nos impede de estagnar e deixar de evoluir. Viver é provar por uma mínima fração de tempo tudo aquilo que poderia ser. Essa fração de tempo é o que chamamos de presente. Neste exato momento, gasto cada uma dessas frações digitando um caractere diferente neste texto. E a cada caractere digitado, minha vida se torna passado e tudo aquilo que poderia ter sido, não será.
A vida é assim, pequenas frações de momento. Quando nos damos conta disso, pode ser que alguma angústia ou sentimento de insignificância nos consuma e isso é completamente normal. Dar-se conta de sua insignificância diante de todo o resto não torna a sua vida menos louvável, pelo contrário, só o torna mais consciente de si e de seu lugar no universo. Somos nada e ao nada retornaremos ao fim de todas as coisas.
Até a próxima.