Ando todos os dias, de segunda a sexta, pelo menos algumas horas de trem. Não porquê goste, mas porque a força da necessidade me obriga a optar por este tipo de transporte. Viajar de trem é algo peculiar, são muitos risos e muitas vozes, as paisagens do lado de fora dos vagões mudam num piscar de olhos. No trem, a vida passa num relance e, sem perceber, nos locomovemos para além de um espaço físico, mas metafísico, um espaço cheio de histórias e enredos impossíveis onde todas as vozes tem sua vez e onde todos são o que são.
O trem é um universo em movimento. Ou melhor, no trem, todos os universos se encontram através de cada pessoa que perambula por seus vagões. Depois de um tempo, alguns rostos se tornam conhecidos e a viagem passa a ser uma espécie de alívio cômico diante da realidade nua e crua da vida. É como se, mesmo viajando em pé na maioria das vezes, o trem se tornasse um tipo de terapia às avessas.
Na locomotiva, todos estão cansados e desgastados a maior parte do tempo. É parte da rotina, parte do ciclo que move milhares de pessoas através de quilômetros para trabalhar na casa dos outros, ou em escritórios apertados, ou mesmo para procurar um emprego. O trem é a locomotiva das massas. O mundo passa aqui e, não à toa, o trem sempre está cheio, sempre carregado. Não só as pessoas são muitas, como também as emoções podem ser sufocantes.
Um riso cínico percorre o trem, é um riso de resignação, de resiliência, ou até de desespero. Mas, é um riso, o riso de quem ri por último, ri melhor. A gente enfrenta e se enfrenta tantas vezes que pode ocorrer de, de repente, surgir uma família dos trilhos. Isso porque o trem é o nosso barco, então estamos todos na mesma, e por estarmos assim, a empatia surge várias vezes de onde menos se espera.
Viajar de trem é viajar o mundo sem sequer cruzar uma fronteira.
Até a próxima.