Caminhava aleatoriamente pela livraria, um pouco procurando um rumo, um pouco me deixando levar ao acaso quando me deparei na seção de quadrinhos da loja. Logo de cara, muitas e muitas HQs de super-heróis fantásticos e com habilidades sobre-humanas em histórias fantasiosas dignas de uma adaptação cinematográfica. Mas, não era o que procurava, estava saturado de super-heróis, afinal, eles estão em todos os lugares, em todas as mídias. Como já estava ali, porém, insisti em procurar algo que se sobressaísse.
Bem tímido, no canto da prateleira, vi um livro de capa azul e vermelha, Nada que se destacasse num primeiro olhar, mas que fugia do padrão de cores berrantes das demais histórias em quadrinhos. Peguei o livro. O nome? Pílulas azuis. O autor? Frederik Peeters. Não sabia quem era nem que obras já tinha escrito. Li um pouco do livro e logo percebi que não lia uma história qualquer, mas um romance que não era como os romances de sempre embalados em músicas melosas, encontros e desencontros. Pílulas azuis é, antes de mais nada, uma história de enfrentamento e coragem diante da ameaça microscópica de um “vírus ignóbil que entra em cena e muda tudo”.
Pílulas azuis é uma HQ autobiográfica e narra os primeiros anos de relacionamento de Cati e Peeters. É, em sua essência, uma história de amor. Todavia, diferentemente de outras histórias do gênero, o foco aqui não reside no encontro do casal, mas na forma como eles manejam seu relacionamento. Tá, mas o que de especial tem isso? Bom, o ponto importante aqui é que Cati é soropositiva e tem um filho na mesma condição. Esse é o ponto em que a história te força a assumir um novo ponto de vista por tratar de um relacionamento marcado pela existência do vírus HIV.
Muito se fala sobre HIV e AIDS em nossos dias, mas pouco se sabe sobre a convivência com o vírus de fato. Campanhas de conscientização e prevenção da doença não faltam, mas o conhecimento sobre a vida do indivíduo soropositivo é, senão nulo, bastante escasso. Há muito preconceito e senso comum quando se toca no assunto. E há temor, compaixão, raiva, piedade, toda uma gama de sentimentos que, em geral, não costumamos expor exceto quando confrontados. Para Petters, a revelação de Cati carregava o vírus surge como um divisor de águas em sua vida. Tudo era muito novo e, mais uma vez, apesar de já ter ouvido muito sobre o vírus, não imaginava como era conviver com ele.
Esse é o pontapé inicial de Pilulas azuis. A partir daí, a história flui em torno das descobertas do casal, suas preocupações e receios em relação ao futuro, ao filho de Cati, à paternidade, à interferência do vírus na relação do casal, etc. É uma história muito rica em sentimentos; apesar de se construir sobre o ponto de vista de Peeters, muito se descobre sobre Cati e parte disso é resultado dos vários diálogos reflexivos que o casal tem ao longo da narrativa. Cati é perseguida pelo sentimento de culpa e responsabilidade, especialmente em relação ao próprio filho. Peeters caiu de para-quedas: não sabia como lidar com uma criança, muito menos com um vírus tão estigmatizado socialmente. Para que o relacionamento entre ambos pudesse ter futuro, era necessário que ambos agissem com franqueza em relação ao outro.
Franqueza é a palavra-chave em Pílulas azuis, porque o livro não se nega em admitir que não sabe de tudo ou que não tem respostas para todas as perguntas. Pelo contrário, expõe todas as dúvidas abertamente como se virasse todas as cartas de uma vez, revelando o jogo por completo. Como o vírus, por si só, parece existir como um terceiro protagonista na história, ignorá-lo seria um esforço fútil. Assim, Peeters estende uma cadeira a ele e o torna parte ativa dos acontecimentos.
Como uma história em quadrinhos, Pílulas azuis funciona muito bem e isso é mérito do autor, já muito reconhecido por outras obras em seu nome. Mas, confesso que me vi imaginando como seria essa história em prosa, sendo levado a crer que, tal como os quadrinhos, seria uma história maravilhosa e muito gostosa de ler. Pílulas azuis não é um livro difícil de ser lido, não possui ideias esdrúxulas ou absurdas demais. Aborda um tema importante para nós: o convívio com o HIV, e ainda ensina a como preveni-lo, passando por uma boa dose de educação sexual. Nos tempos atuais em que um líder de uma nação estigmatiza toda uma população com HIV, Pílulas azuis é um livro perfeito para combater o preconceito e espalhar conscientização a uma sociedade cada vez mais carente de conhecimento.