O que veio primeiro? A língua ou a realidade? A história da humanidade passou a ser contada e conhecida com os primeiros registros litográficos dos “homens da caverna” há milhares de anos. Desde então, a linguagem evoluiu, se desenvolveu e, dela, nasceram as línguas modernas como as conhecemos hoje. Nesse meio tempo, a história das civilizações passou por inúmeras transformações e essas transformações ficaram expressas na língua de cada povo onde elas ocorreram. A língua sempre esteve lá para dar forma e cor a essas mudanças, para servir de registro histórico da passagem do homem aqui neste plano, para ser também a força motriz dessas mudanças, sendo a ferramenta para fechar acordos ao mesmo tempo em que servia para nutrir dissidências.
Eu tenho uma gata, ela se chama Foguetinho. Dei esse nome a ela porque, quando filhote, ela tinha pequenos episódios de hiperatividade em que saía correndo e saltitando pela casa tal como um foguete voando pelos ares. Seu nome, portanto, é reflexo de sua realidade ao mesmo tempo em que, de certa forma, é a causa da mesma. Veja bem, o nome de minha gata é uma metáfora por si só. Não existiria nem faria sentido sem, antes, existir um objeto chamado foguete que fosse capaz de ser lançado ao ar em grande velocidade. Dessa forma, para existir a Foguetinho, tal como a tenho hoje, foi preciso, antes, existir um foguete. Mas, minha gata existe para além de seu nome, isso é fato e nisso, todos concordamos. Contudo, ela não seria quem é sem antes existir um objeto que fosse a raiz de seu nome, o foguete. “Ah, mas se não existissem foguetes, você lhe daria outro nome.” Sim, isso é fato. Todavia, neste caso, já não falaríamos mais da Foguetinho, mas de outra gata que, ainda que fosse a mesma, seria outra, com outro nome e, por consequência, com outra associação de ideias.
Dos primeiros registros litográficos ao nome de minha gata, a história da humanidade passou por inúmeras transformações, todas registradas e eternizadas por meio da língua. Nossos idiomas refletem nossa história de colonização. Nossos sotaques são resultados de nossa miscigenação com outros povos, nossas gírias são frutos de nossas circunstâncias mui diversas e por aí vai. Mesmo no Brasil, a língua não é a mesma em todos os cantos do país. Do norte ao sul, a língua se transforma e adquire inúmeras facetas que refletem a realidade de seus falantes. Se eu quero distinguir um nativo do Rio Grande do Sul de um do Ceará, basta que eu lhe peça para que fale algo comum. Pela pronúncia do que for dito, serei capaz de reconhecer a origem de cada um dos falantes com grande grau de certeza, sem sequer precisar ter contato visual com o falante.
De um modo ou de outro, precisamos da língua para reconhecermos a realidade de agora e a passada. É por meio dela que tomamos consciência de nossa história e moldamos nosso futuro. Sem a língua, a realidade seria um amontoado de coisas indecifráveis e incognoscíveis na qual estaríamos eternamente condenados ao ermo, à ausência de significado e sentido. Na metáfora do ovo e da galinha, a língua é, ao mesmo tempo, o ovo e a galinha; ela é resultado das experiências que vivemos ao mesmo tempo em que é, ela própria, a experiência. A realidade se realiza na língua e esse é um fenômeno espontâneo e incontrolável, uma força da natureza que nos cria e que nos localiza naquilo que consideramos como real. Na história da humanidade, o ser humano nasceu e passou a existir quando escreveu na pedra pela primeira vez. Morreremos, portanto, quando o último registro for feito. Até lá, a realidade continuará sendo escrita e vivida tudo ao mesmo tempo, tudo espontaneamente.