Silêncio

“Hoje, aos 32 anos, a surdez é uma parte deveras importante em minha vida; ela definiu muito de quem eu sou e, ainda que algumas pessoas insistam em dizer que eu não “sou” surdo, mas “estou” surdo, eu sigo pelo lado contrário e digo que sim, eu SOU surdo e isso não é lá um grande problema, ainda que não seja também uma virtude.”

Eu tenho surdez. Essa é uma realidade com a qual convivo desde parte de minha infância. Hoje, aos 32 anos, a surdez é uma parte deveras importante em minha vida; ela definiu muito de quem eu sou e, ainda que algumas pessoas insistam em dizer que eu não “sou” surdo, mas “estou” surdo, eu sigo pelo lado contrário e digo que sim, eu SOU surdo e isso não é lá um grande problema, ainda que não seja também uma virtude.

A surdez é algo um tanto conflitante, por um lado, você se vê desprovido de um sentido que é importante para sua percepção de mundo, a priori, e também, para sua comunicação com ele e com as coisas e pessoas que fazem parte dele. Por outro lado, a mesma surdez que, numa primeira análise, surge como fator limitante, é também um gatilho que te faz experimentar um novo modo de experenciar a realidade, forçando o aguçamento de seus outros sentidos, fazendo-os extrapolar os limites do que seria considerado normal e mediano.

É lógico, estamos falando de uma deficiência por natureza. Não ser capaz de ouvir é, portanto, uma debilidade que, na medida do possível, precisa ser corrigida com o auxílio dos recursos que se fizerem disponíveis em dado momento. No meu caso, essa correção veio por meio do uso de próteses auditivas, as quais me permitiram, ainda que não por completo, perceber e me comunicar com o mundo. Mas, esse é um ponto que me gera conflitos porque ouvir, mesmo que com próteses, nunca me pareceu uma tarefa muito simples de se realizar, impondo-me um custo que, por vezes, me vejo incapaz de pagar.

Veja bem, ouvir, mesmo que com próteses, é um privilégio para mim, isso me permite, por exemplo, tocar meu violão e dedilhar algumas músicas mais simples, ainda que com algum esforço a mais. Porém, as próteses me dão o questionável privilégio de poder desligar minha audição quando ouvir se torna algo incômodo demais. Hoje, aos 32 anos, minha tolerância auditiva está muito abaixo da que eu tinha lá em 2011, quando comecei a usar minhas próteses. Um ambiente um pouco mais ruidoso é algo que me causa um incômodo, por vezes, insuportável. Mesmo em casa, com minha família, ouvir pode ser dispendioso e isso me gera um sem número de conflitos internos porque, afinal, as pessoas querem ser ouvidas também. No entanto, ao conviver com a surdez por tantos anos, o silêncio que ela me propicia se tornou muito mais atraente do que o privilégio de ainda poder ouvir os outros.

A surdez é como as digitais que carregamos em nossos dedos, ela é muito pessoal, muito íntima. Talvez, por isso, pessoas nesse contexto sejam mais introspectivas do que o restante. Mas, isso é só uma análise pessoal minha. O fato é que ser surdo me tornou mais ligado ao ambiente dentro de mim do que àquilo que acontece fora de mim. A voz que sempre fala em minha mente não é muito calma, pelo contrário, ela fala o tempo inteiro. Então, apesar do silêncio da surdez, minha mente vive com uma escola de música ligada o tempo todo, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Logo, não é por acaso que, de certa forma, eu não goste de ouvir. A verdade é que eu ouço demais tudo aquilo que soa dentro e fora de mim e isso acaba criando um conflito no fluxo de informações que chega até mim, me impedindo de processar tudo o que está sendo lançado ao ar.

A verdade é que me acostumei ao silêncio que a surdez me oferece. Os médicos que me acompanhavam até antes do início da pandemia diziam que isso não era bom porque, de certo modo, atrofia as estruturas neurossensoriais responsáveis pela audição (falando de forma bem genérica). Eu entendo isso e somente por isso persisto em ouvir. Mas, não nego que, às vezes, me vejo tentado a abrir mão desse privilégio e a assumir a surdez como parte integral de minha vida. Não faço isso porque, entre outros motivos, dificultaria demais a comunicação que tenho com as pessoas (isso é um tópico para outro texto). Na vida real pós pandemia, aprendi que ouvir se faz bastante necessário para quebrar o silêncio da quarentena e o isolamento que ela propicia. Se eu não tivesse minhas próteses, não tenho dúvidas de que minha experiência pessoal e familiar com o isolamento social teria sido mais desgastante do que já foi. Então, não é difícil fazer as contas e chegar à conclusão de que certos privilégios são bem vindos mesmo que o custo de mantê-los seja um pouco alto.

Assim, sigo tentando conciliar esses conflitos dentro de mim, tentando gerenciar essa necessidade quase constante de manter um silêncio em meu mundo particular com o intenso fluxo de informações sonoras que fluem fora de mim. Nem sempre dá certo, às vezes o estresse bate forte e, sinceramente, não sei bem onde quero chegar, mas, a questão é que, apesar da impressão de isolamento que a surdez causa, eu não vivo só e esse, talvez, seja o motivo mais importante para me impedir de aderir à surdez por completo porque, não vivendo só, me vejo obrigado a procurar meios que me ofereçam um grau mínimo de comunicação com o mundo e as pessoas. Logo, enquanto me for possível, continuarei a ouvir o que quer que seja até que isso não seja possível mais. Até lá, vou vivendo um dia de cada vez até que tudo chegue ao seu fim.

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

Entre o ontem e o amanhã sou o hoje.

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