Eu cresci em família cristã. Por muitos anos, a vida na igreja foi uma parte constante e alegre em minha história e isso não é e nunca foi demérito algum. A vida na igreja me trouxe muitas experiências felizes e satisfatórias, amigos que tenho como irmãos e, mais do que isso, serviu de base para minha concepção de vida e filosofia. Eu não seria o mesmo sem essa parte importante em minha história.
Mas, a verdade é que minha vida com a igreja e, por extensão, com deus sempre foi muito cercada de dilemas de diversos tipos, sexuais, ideológicos, morais etc. Ser um jovem cristão em meio a um mundo em plena expansão tecnológica e das redes sociais foi e, creio eu, continua sendo um desafio para aqueles que seguiram nesse caminho. Não é o meu caso.
Eu abandonei deus, por assim dizer, e até chegaria a dizer – entre uns goles de cerveja e outro – que sou um ateu convicto – o que não é de todo verdade. O fato é que minha concepção religiosa é muito instável e imprecisa, além de carecer de um certo bocado de coesão. Então, resumidamente, eu não sou nada, não creio nem descreio em qualquer ser divino – ou diabólico – que tenha planos incognoscíveis para a humanidade.
Mas, eu amava a vida na igreja, amava o protagonismo do púlpito ou a presença de palco da banda musical, amava toda essa experiência que, àquela altura, não havia sido contaminada por minha descrença atual. Deus era um conforto, cobria todas as lacunas para as quais eu não tinha respostas. No entanto, esse mesmo deus, através dos homens, me condenava por eu ser quem era (e sou), reprimia minha liberdade de pensamento – que sempre foi o bem que eu mais valorizei na vida – e ainda me fazia me sentir culpado por não me encaixar por completo na caixinha de normas e dogmas que esses homens impunham aos seus asseclas.
Eu amava a vida na igreja, mas também a odiava por outro lado porque há muito julgamento nos bastidores. Há muito pouco de deus nas entrelinhas que percorrem os cultos dominicais. E sim, eu sei que isso pode soar generalista, mas, infelizmente, não vejo como fugir à generalização. A igreja de nossos dias é um tanto moralmente questionável. Mas, o ponto não é esse, mas eu e deus, eu e a igreja. É aqui que reside a incógnita que dá título a este texto porque, até então, nunca consegui encontrar um deus para mim apesar de muitos dizerem que ele está ao alcance de uma oração.
Eu me emocionava com as músicas, participava ativamente de toda a “histeria esquizofrênica” das igrejas neopentecostais e, sendo bem franco, não me arrependo de nada disso ainda que, não nego, em alguns momentos bata um sentimento de vergonha alheia. Entretanto, o ponto é que eu me sentia parte de um grupo que compartilhava os mesmos intuitos que os meus que eram, em primeiro lugar, buscar a deus acima de todas as coisas.
Hoje, noite após noite, eu sonho com deus, sonho com a igreja, sonho com a hipótese de um retorno, sonho com os dilemas que um retorno a essa altura me traria e é difícil porque, mais do que uma questão moral, é uma questão de ter fé, e isso, meus caros, eu não tenho certeza de que ainda tenho. O mundo está tão mal, tão desalinhado. É difícil ver as coisas boas quando tudo está uma bagunça. É difícil encontrar deus quando o mal prevalece sobre todas as coisas. Eu não sei no que crer e nem se há algo para ser crido. Mas, eu queria, do fundo do meu coração, que deus estivesse aqui, que ele colocasse sua mão sobre meu ombro e me consolasse nem que fosse por alguns segundos. Queria sentir seu afago e o conforto de seu abraço carinhoso, saber que tudo ficaria bem apesar de tudo estar mal. Mas, sei lá, acho que ainda não evoluí a esse ponto, então só me resta esperar que algum sinal apareca em algum momento oportuno. Até lá…