Expectativa & Realidade

“Para as pessoas de minha geração, a vida sempre foi uma promessa de que seria bem sucedida, de que teríamos bons empregos, uma família estável, carro na garagem, faculdade e todo o mais que é considerado símbolo de uma vida bem sucedida. Entretanto, a verdade é que, para a maioria de nós, essa é uma realidade total ou parcialmente distante de nós.”

Estou ouvindo no computador a música Release, da banda Pearl Jam. Confesso que sou um admirador dessa banda desde muitos anos por me imergir ao som de suas canções e alcançar um estado de melancolia e paz (é possível?) nessas ocasiões. Antes de começar a ouvir o álbum Ten deles, assisti alguns vídeos de apresentações da banda e sempre fico impactado com a potência que o vocalista coloca na interpretação de suas músicas, não é como se ele apenas performasse uma apresentação qualquer para angariar audiência, mas, longe disso, ele se entrega à suas apresentações de corpo e alma porque isso é, para ele, o mínimo que ele pode oferecer ao seu trabalho. E isso impressiona porque, olhando o histórico da carreira do Pearl Jam, é notável que eles tiveram um boom meteórico e logo se tornaram uma das bandas mais relevantes no cenário do grunge, estilo musical que é meu favorito até hoje. Mas, mesmo com esse boom, eles não perderam a essência do que eles são, não se deixaram levar pelo que era tido como comercial e isso é algo que me agrada muito pois ajudou a manter a identidade deles.

Mas, o ponto é que não quero falar da banda, o que falei foi apenas para dar um contexto. Assistia alguns vídeos sobre eles pensando na minha própria vida. Para as pessoas de minha geração, a vida sempre foi uma promessa de que seria bem sucedida, de que teríamos bons empregos, uma família estável, carro na garagem, faculdade e todo o mais que é considerado símbolo de uma vida bem sucedida. Entretanto, a verdade é que, para a maioria de nós, essa é uma realidade total ou parcialmente distante de nós. Vivemos na expectativa de que somos relevantes de algum modo para a sociedade ao nosso redor, crescemos com nossas famílias nos dizendo o quanto somos especiais e, talvez, até sejamos mesmo, mas nunca gostei do rótulo “especial” porque, quase sempre, ele denota que somos diferentes dos demais e que essa diferença nem sempre é uma coisa positiva. Claro, esse é um problema que vem desde as gerações anteriores à nossa. Meus pais me prometiam um futuro brilhante baseados na própria realidade difícil que eles viveram. Logo, para que seus filhos não passassem pelas mesmas dificuldades que eles, prometeram que nossas vidas seriam melhores e, de certa forma, foi mesmo. O problema é que muitos pais colocam sobre seus filhos as expectativas que eles tinham sobre eles mesmos e isso é uma armadilha voraz demais para os incautos da vida.

A verdade é que, em grande parte dos casos, os filhos crescem frustrando tanto os sonhos dos pais como os próprios e esse é um problema que precisa ser encarado de frente porque não há como fugir dele. Precisamos alinhar as nossas expectativas e a dos outros à nossa realidade objetiva e, a partir daí, tomar as melhores decisões possíveis de acordo não com as expectativas que foram projetadas sobre nós, mas de acordo com nossas próprias expectativas. Claro que é possível alinhar as expectativas de nossos pais às nossas e isso acontece em muitos casos, mas quando não é possível, é necessário um pouco de gingado para lidar com essas diferenças e chegar a um denominador comum. Nossos pais tem uma visão de mundo que, de certo modo, está defasada em relação à realidade atual enquanto que nós, mais jovens do que eles, não temos a menor ideia de como era a vida deles em suas juventudes. Há uma falta de sincronia entre as duas partes e, para que isso seja resolvido, é preciso diálogo, conversar aberta e francamente e tentar chegar a um acordo.

Hoje, escrevendo isso, penso no que será de meu futuro, se realizarei os sonhos que tenho em mente em algum momento. Sinceramente, eu não sei, está tudo uma zona ainda, os planos que tinha tiveram de ser trocados por outros e tenho receio de que esses novos acabem me levando pelo caminho de frustração que tanto conheço. Algumas pessoas dizem que todos temos as mesmas 24 horas do dias, mas a verdade é que, para muitos, essas 24 horas são muito menos do que o tempo necessário para uma pessoa ter uma vida digna e uma rotina saudável. Começa a tocar a música Black em meu computador e me pego voltando ao início deste texto. Eddie Vedder, o compositor dessa canção, tem uma relação que, ao meu ver, é um tanto intensa e até dolorida devido a relação dessa música com sua própria vida. Fico pensando que quando ele escreveu a letra dessa canção, não fazia ideia de que ela alcançaria um sucesso tão estrondoso como ocorreu ao mesmo tempo em que não fazia ideia das expectativas que seus ouvintes impuseram a ela devido ao seu sucesso. Mais um caso de expectativas não alcançadas, pois quando elas vem de terceiros alheios a nós, é impossível termos controle sobre elas. Não podemos viver nossas vidas à sombra das expectativas que recaem sobre nós porque, além de irreal, isso é um absurdo. Só posso viver por mim e mais ninguém. Se alguém deseja caminhar junto a mim, deve entender que suas expectativas em relação a nós devem ser niveladas pelos interesses dela sem esperar que eu realize todos os seus sonhos. Cada um de nós é responsável pelos sonhos que temos, nada mais do que isso.

Boa noite.

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

Entre o ontem e o amanhã sou o hoje.

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