Assisti a série Ruptura (Severance, no original) na Apple TV+ e foi uma experiência um tanto reveladora. A série faz uma crítica direta, mas indigesta ao modelo de produção vigente nas grandes empresas do mundo inteiro e ainda, questiona essa ideologia positivista de se separar a pessoa que você é no trabalho daquela que você é fora dele. Não é um movimento muito fácil e por isso, na série, os funcionários da empresa que protagoniza o programa passam por um procedimento chamado ruptura em que eles segregam suas memórias em duas que são incomunicáveis entre si, mas que se alternam de acordo com o lugar onde as personagens se encontram.
Achei interessante essa premissa de poder separar dentro de mim dois “eus” diferentes que se alternam se eu estou no trabalho ou em minha casa. Mas, na prática, isso faz com que um desses eus se torne um escravo eterno do trabalho já que ele nunca poderá existir fora das paredes que delimitam seu espaço profissional. Enquanto isso, o eu que existe fora da empresa pode viver sua vida normalmente sem as preocupações cotidianas decorrentes de seu trabalho. Aposto que muitos gostariam de experimentar isso, mas também teriam receios em relação ao fato de dividirem suas identidades em duas distintas e não conciliáveis.
Essa série me fez pensar muito na questão do eu que eu sou. Em minha mente, acredito que aquilo que chamamos de eu nada mais é do que um complexo de ficções que se convergem em um ponto comum onde nasce o eu que conhecemos. Isso abre margem para que vários eus existam já que eles não vivem em um contexto único e invariável. Assim, o eu que eu sou no trabalho é diferente daquele que existe em minha casa e é diferente do que se relaciona com meus amigos e assim sucessivamente. Todavia, o que todos eles tem em comum é que todos compartilham as mesmas memórias e justamente por compartilharem as mesmas memórias é que se pode dizer que, apesar de tantos eus, todos eles são um só, no caso, o Pedro.
É a memória que nos conecta conosco e com os outros. Sem ela, o que entendemos por realidade seria um completo caos de sinapses ocorrendo aleatoriamente e sem resultado algum. O eu primário tem consciência de sua individualidade e esse é o ponto-chave na série Ruptura porque, ao separar os eus dos personagens, cada eu novo que surge o faz com uma nova noção de individualidade e aí, para cada personagem que passa pelo procedimento de ruptura, passa a existir mais de um deles mesmos, mas sem que eles conheçam um ao outro. São dois eus compartilhando um corpo, mas que não se conhecem nem conhecem a vida externa do outro.
Na vida real, todas as nossas ficções se interrelacionam em algum momento. Em algum momento de suas vidas, áreas diferentes dela irão se misturar em algum grau e aquele seu colega de trabalho passa a ser seu amigo de família, seus amigos de infância passam a compartilhar a vida adulta deles contigo. Enfim, tudo se mistura inevitavelmente, não conseguimos crescer isoladamente porque a vida humana é essencialmente social. Você pode até estabelecer limites pessoais onde cada coisa pode existir separada das demais, mas isso, quase sempre, não funciona o tempo todo. Então, ficam as perguntas: quem é você? O que você é?
Como disse, sou adepto da ideia de que nós somos resultados das ficções que convergem sobre nós. Cada ponto de vista de cada pessoa acerca de nós é uma ficção diferente e para cada uma delas nós existiremos de um jeito novo. Às vezes, seremos de um jeito. No momento seguinte, seremos completamente o oposto. Mas, apesar disso, ainda seremos nós mesmos, ainda que diferentes. O que talvez seja de maior valor, no entanto, é a consciência que temos de nós mesmos, o nosso senso de individualidade e até de identidade porque, apesar de todas as visões dos outros sobre nós, temos também nossa própria visão sobre quem somos e ela, quase sempre, é determinante para a forma como você se coloca no mundo e em relação às outras pessoas. Nós somos como uma cebola em que cada camada corresponde a uma faceta nova de nós mesmos. Se tirarmos todas as suas camadas, o que sobra?