Quando comecei a assistir a série Pluribus, da Apple TV, fiquei intrigado com o que ela prometia oferecer a mim enquanto telespectador. Seria puramente um entretenimento, alguma distração dessa realidade maçante que temos vivido dia após dia ou alguma espécie de reflexão profunda sobre a natureza virtual de nossos dias diante de uma realidade que nos torna cada vez mais incapazes de uma introspecção para dentro de si? Terminei o último episódio, lançado ontem (24/12/2025), concluindo que a série tinha me dado muito mais do que eu esperava inicialmente e que isso, pelo menos para mim, valeria um texto no meu blog que é – não ironicamente – tão isolado quanto Carol Sturka se tornou ao final.
Pluribus é uma série pensada por Vince Gilligan, também criador de Breaking Bad e Better Call Saul, que traz à tona um cenário apocalíptico um tanto quanto diferente de todas as distopias tão bem conhecidas pelas pessoas. Aqui não há zumbis – pelo menos não no sentido clássico – não há máquinas se rebelando contra a humanidade causando um apocalipse tech, também não há uma invasão alienígena no sentido estrito da coisa (quem viu a série sabe que essa parte é questionável). Enfim, o mundo “termina” de forma um tanto quanto pacífica e sem a rebelião de bilhões de seres humanos, exceto pela Carol. Ela faz parte do diminuto grupo de pessoas que não foi infectado pelo vírus que causou o fim da humanidade. Desses 12 homens e mulheres, vemos que a maioria parece aceitar muito bem o atual fim de sua espécie enquanto outros, Carol, inclusive, parecem ver nessa situação um cenário divisor de águas onde eles têm que decidir se se aliam aos “Outros” ou se, como Carol (e Manousos), decidem salvar a humanidade.
Mas, o grande “tchã” dessa série não reside em ter de escolher se você aceita o fim tal como ele é ou se decide lutar contra ele como quem luta contra o próprio destino. Não! O grande trunfo da série está em nos fazer vagar e divagar pela mente de uma pessoa hipócrita e um tanto quanto egocêntrica que passeia do início ao fim da temporada pelos cinco estágios do luto. Carol Sturka está longe de ser um exemplo de uma pessoa de bom caráter, pelo contrário! Falando por mim, muitas vezes me vi questionando a lógica da protagonista em momentos em que ela dizia uma coisa mas fazia outra completamente diferente de seu discurso. Ao mesmo tempo, me vi nela como o sujeito que é tão apegado às suas coisas que se prende tão profundamente a elas que luta com todas as forças para impedir que elas se vão mesmo sabendo que, no fim, terminará sozinho e sem nada.
Além disso, e aqui está o ponto que mais me chamou a atenção, Pluribus é uma série que põe em xeque o peso da coletividade diante da necessidade de termos nossa própria individualidade. O fim do mundo na série se dá, muito paradoxalmente, pela união de todas as mentes numa espécie de colmeia em escala global e em tempo real. Exceto pelos 12 humanos que escaparam ilesos do vírus, todo o restante da espécie deixou de existir enquanto indivíduo para existir como parte de uma grande engrenagem colaborativa cujo fim maior é se espalhar pelo universo tal como se supõe que eles fizeram antes de chegarem aqui. É nesse duelo entre o nós e o eu que Carol se vê sem saber como reagir e agir porque, apesar de toda a sua frustração com sua própria vida antes do vírus, ela nunca parou para agir de fato em prol de si mesma; vivia um relacionamento lésbico com uma mulher (Helen) que não era conhecido pelo seu público, era autora de um bestseller literário cujo protagonista era um homem acompanhado de uma bela dama enquanto ela mesma sentia aversão por essa narrativa, era uma escritora relativamente famosa que via em seus próprios leitores uma espécie de futilidade em relação ao apreço pelas histórias que ela escrevia. Ou seja, Carol Sturka era uma verdadeira contradição ambulante. Contudo, é quando o vírus se instala que, talvez pela primeira vez, ela se vê forçada a admitir sua própria natureza e satisfazer a si própria – ainda que um tanto tardiamente – assumindo sua relação para si e para os outros sem fazer muitos rodeios quanto à sua própria sexualidade.
O que é interessante notar, porém, é que parece que a própria Colmeia não pareceu se importar com nada disso ao ponto de se apresentar pela primeira vez a Carol na forma de uma mulher que tem todos os atributos característicos do personagem principal da escritora exceto pelo fato de ser uma mulher. Estou falando de Zozia, caso não tenha ficado claro. E isso soa tão disruptivo porque, contrariando sua própria concepção, Carol não imaginava que sua sexualidade fosse algo tão óbvio assim, o que não é bem o caso. Entretanto, não podemos desconsiderar o fato de que a Colmeia também tinha acesso às memórias de Helen, parceira finada de Carol e, por isso mesmo, saberia o óbvio sobre ela. É aqui que a individualidade de Carol parece começar a se desvanecer aos poucos pois aquilo que era motivo de segredo para ela passa a ser diluído pela mente coletiva de tal modo que passa a ser irrelevante no contexto geral das coisas, afinal, pouco importa se Carol é lésbica ou não, o que se quer é tê-la como parte dessa mente coletiva. O indivíduo não subsiste perante toda uma espécie que foi subjugada por um vírus que veio de sabe-se lá onde. A partir desse momento, Carol é tão somente um ponto fora da curva, uma engrenagem que se comporta de forma diferente e que precisa ser realinhada de acordo com aquilo que é valorizado pela coletividade.
Isso tudo me parece um tanto provocativo porque ao mesmo tempo em que a série mostra como o pensamento coletivo pode, de certa forma, trazer a paz ao mundo, também mostra um preço um tanto caro que se paga para se alcançar tal fim – o que é demonstrado através da “conversão” de uma personagem logo no início do último episódio. Carol Sturka, aqui, parece representar a busca incessante pelo próprio eu numa luta constante para se reconhecer e se autoafirmar. Em contrapartida, Os Outros representam a pedra angular de um movimento que vê no c0letivo o caminho para paz ainda que, para isso, tenha que se recorrer a medidas um tanto quanto extremas. Não há, no contexto da série, um cenário em que o EU e o NÓS coexistam de forma pacífica e equilibrada. A liberdade individual de Carol não pode existir junto com o pensamento coletivo d’Os Outros, não há espaço para diálogo e mesmo quando estes dizem que não farão nada com Carol sem seu consentimento, eles também omitem a informação de que, na verdade, estão fazendo todo o possível para convertê-la ainda que ela não saiba disso… ainda.
Alguns poderiam dizer que Carol Sturka representa todo o pensamento liberal de uma política tipicamente de direita enquanto Os Outros representariam sua contraparte de esquerda. Eu, particularmente, acho essa uma análise um tanto crua e carente de profundidade ainda que reconheça que, pelo menos na superfície, ela faz algum sentido. Considerando as obras anteriores de Vince Gilligan, não seria estranho dizer que Pluribus se pretende como uma série que quer quebrar o sistema, colapsar as estruturas que sustentam uma mentalidade um tanto quanto rígida e incapaz de lidar com mudanças, sejam elas pequenas ou grandes. Por alguns momentos, eu achei mesmo que Carol e Zozia iriam chegar a algum meio-termo que permitisse a coexistência delas duas, mas como disse, no contexto da série, parece improvável existir algo como uma conciliação entre esses dois extremos. Carol segue firme em prol de sua própria existência, agora com o apoio não muito querido de Manousos, enquanto Zozia e Os Outros seguem apressando os ponteiros do relógio a fim de antecipar o fim dessas anomalias que destoam de todo o circuito de engrenagem que foi montado até aqui. O que será que os espera? Só saberemos daqui algum tempo, até lá, seguimos tentando encontrar um caminho para a conciliação.