Em 2019, trabalhava numa concessionária de energia elétrica do Rio de Janeiro. Não era um trabalho maravilhoso mas pagava minhas contas. Considerando tudo o que passei na empresa, até que foi uma experiência minimamente interessante. Todavia, nessa mesma empresa desenvolvi transtorno de ansiedade generalizada e, bom, sigo em tratamento desde então. Naquela época, escrevia sobre banho de balde, o calor do Rio e saúde mental — tudo no mesmo texto, no mesmo diálogo — e, por algum motivo bizarro, tudo isso se conectava. Em 2019, tirei licença médica por três meses por conta de uma sequência de ataques de pânico frequentes e intensos. Foi um período difícil porque nunca imaginei que minha mente pudesse ficar tão debilitada a ponto de eu sentir medo de mim mesmo. Mas aconteceu. Me tratei e, aos poucos, as coisas foram melhorando, ainda que não tivessem voltado a ser como antes.
Nessa empresa, trabalhava com atendimento ao cliente. Era um trabalho normal, não muito complicado, mas um tanto exigente psicologicamente — engana-se quem pensa que atendimento ao público é fácil. Não é. Contudo, esse era o emprego que existia para mim naquela época e que me dava a autonomia de que necessitava. Só que nessa mesma época havia sido finalmente chamado para fazer duas cirurgias muitíssimo importantes para mim: uma do implante coclear e outra na coluna, de correção da escoliose. Muitas expectativas rondavam aquele momento, e minha mente não sabia processar tudo de forma completamente racional. No fim das contas, por uma grande e ingrata ironia do destino, fiquei sem as três coisas. Mas até aí as crises maiores de ansiedade já tinham feito seu estrago, e eu me resumia a juntar meus pedaços.
A grande verdade que consigo tirar disso tudo é que, por mais que performemos um personagem durante nosso dia a dia com os outros, isso não nos dá garantia alguma de segurança ou de que seguiremos assim numa boa para sempre. Ter meus surtos de pânico me fez perceber que nada está sob meu controle pleno e que o simples fato de existir se torna uma variável completamente imprevisível num mundo de infinitas escolhas. Até aquele momento, performava uma imagem de sobriedade e normalidade que escondia os conflitos que ocorriam dentro de mim, mas o mais interessante nisso tudo é que, quando minha máscara caiu, descobri que outras tantas pessoas passavam pelo mesmo que eu e torciam para que não chegasse a vez delas de ver suas próprias máscaras caírem também. A verdade é que todos nós, de alguma forma, estamos performando sabe-se lá o quê e queremos manter esse personagem — talvez por medo de encarar nossa própria fragilidade.
Hoje, com 36 anos, vejo que muito do que pensava sobre a vida e tudo mais mudou quando tive minha crise maior, porque fui forçado a fugir desse papel de falsa normalidade que interpretava até então porque. Afinal de contas, o que há de normal em esconder sua própria vulnerabilidade atrás de uma imagem de pessoa forte, como se isso pudesse mudar a realidade de alguma forma? Vivi anos interpretando esse papel ao ponto de esquecer até mesmo quem eu era de fato, porque eu me tornei desconhecido para mim e já não era capaz de reconhecer meu próprio reflexo no espelho. Vilém Flusser, filósofo de quem gosto bastante, costumava dizer que somos todos como cebolas — recobertos por camadas de ficções que, de algum modo, tentam representar quem realmente somos. O problema, porém, é que, tal como a cebola, se retirarmos todas essas camadas, o que sobra é nada.
O que há no cerne da cebola, então? O que há no seu cerne? “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o mundo.” Muito bonito, só que ninguém nunca disse o quão difícil seria fazer isso, porque para se conhecer, é preciso abrir mão de todos os conceitos previamente estabelecidos. Para se conhecer, é preciso admitir, em primeiro lugar, que você não conhece nada — e isso nos coloca numa posição de extrema vulnerabilidade, porque, se nada conhecemos, como vamos nos defender contra o que quer que surja diante de nós? Viver é existir e existir é experimentar. A vida não seria, então, um grande laboratório? Não estaríamos todos numa imensa bancada performando os mais variados experimentos a fim de construir aquilo que consideramos real para nós mesmos? Não seria tudo uma performance? E, se assim o é, o que acontece quando as cortinas caem?