Quando a ideia para o Epitáfios à Parte surgiu, eu estava no meio da graduação em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Era por volta de 2009 e lembro-me de estar sentado numa mesa de computador num dos laboratórios de informática que a instituição oferecia aos alunos. Sempre gostei de escrever porque, escrevendo, consigo tratar de assuntos que, oralmente, tenho muita dificuldade de lidar. Sejam assuntos pessoais ou triviais, política, cinema ou filosofia. Escrevendo, tudo fica mais fácil de trabalhar, de expor, de entender e, principalmente, de se fazer ser entendido. A escrita não é uma ação linear, aprendi isso com o tempo. Muitos pensam que o ciclo da escrita é pensar na ideia, colocá-la no papel e divulgá-la por aí, mas não é bem assim. Costumo dizer que assim como o autor escreve o texto, o texto também escreve o autor. Muito do que conhecemos dos grandes escritores da humanidade não existe porque se pôde conviver com eles intimamente numa vida compartilhada e fraternal. Não mesmo! O que nós conhecemos do autor A ou B nada mais é do que fruto de seus trabalhos, seus escritos, suas opiniões gravadas em rolos de filme ou papel. Gravadas para a posteridade para eternizar homens e mulheres que, numa ínfima fração do tempo, marcaram gerações inteiras.
Quando eu pergunto no título “o que ninguém vê quando você está só?” tem tudo a ver com o que falamos até aqui. Quem sabe quem era Machado de Assis para além de Dom Casmurro e outras obras. Quem sabia o que se passava na cabeça de José de Alencar quando ele aproveitava um momento de ócio em sua vida? E Clarice Lispector? O que ela fazia quando estava só? Saramago, Gregório de Matos, Cora Coralina. Quem eles eram quando ninguém os via? E quem somos nós quando estamos protegidos dos olhares alheios? Nos anos que temos vivido, a realidade tem mudado de forma numa intensidade tão grande que, hoje, tudo é televisionado, tudo é transmitido e compartilhado em tempo real, 24 horas por dia, sete dias por semana. Somos monitorados na rua, no trabalho, nas escolas, nos ônibus e, o mais absurdo, até mesmo dentro de nossas casas. O que nos resta de intimidade absoluta conosco mesmo? Que espaço temos reservado para nós? Um espaço onde podemos nos desfazer de todas as ficções que o mundo e a sociedade impõem sobre nós. Desmanchar todas as cascas dessa cebola até que nada mais sobrasse além daquela pequenina e inominável fração que dá origem àquilo que chamamos de eu.
A internet nos levou ao encontro do mundo, nos fez conhecer culturas e opiniões diversas, nos aproximou de tal forma que, num piscar de olhos, estamos falando com pessoas do outro lado do mundo sobre os mais diversos assuntos. A globalização não é só política e econômica, mas também, virtual e social. Pessoas que nunca se viram agora se comunicam na velocidade de um clique na tela do celular. Estamos em todos os lugares ainda que, fisicamente, não tenhamos saído da cama em nosso quarto. Mas, enquanto isso, as portas têm se fechado nas mentes das pessoas porque, quanto mais elas conhecem os outros, menos elas sentem que têm alguma relevância no contexto geral das coisas. Enquanto o mundo está se abrindo em lives sucessivas, as pessoas estão se escondendo atrás de avatares virtuais para parecerem algo ou alguém que não necessariamente corresponde àquilo que elas são de fato. Vive-se uma época, como diria Rimbaud, onde “O eu é o outro” e isso é um tanto doentio porque ignora toda a história de vida que levou a alguém a ser de determinada forma e a agir de determinado jeito.
O subtítulo de meu site – e título deste texto – sempre existiu como uma proposta de pensar em si mesmo como alguém único mas sujeito às imposições da vida urbana, afinal, como sempre digo, somos todos um complexo de ficções que se convergem em um único ponto para dar luz a nós. Se uma dessas ficções diverge, o resultado é algo completamente desconhecido. Mas, a grande questão é: e se todas essas ficções deixarem de convergir naquele ponto para onde elas originalmente se dirigiriam, o que haveria ali? Nós somos nós mas também somos o olhar de nossa família, o afeto de nossos vizinhos, a colaboração com nossos colegas de trabalho, a atenção das pessoas com quem falamos no mercado. Nós somos nós mas somos o outro também em alguma medida. O eu em si é um mistério que só se revela no silêncio profundo de quando todos os olhares cessam e sobra apenas sua própria consciência a pensar sobre si. Nesse estado, o que os outros dizem, fazem ou pensam de você pouco importa porque eles já não estão mais ali. É só você e sua existência íntima e desnuda para si mesmo. E o que sobra quando isso acontece?
Esse texto é uma resposta a um de meus primeiros escritos no Epitáfios à Parte, republicado em 2016.
Você pode lê-lo aqui: Por que Epitáfios à Parte?