Outubro · 2026

Epitáfios à Parte

O que ninguém vê quando você está só

✦
· 11 out 2026 · 5 min de leitura

Revisitando a música Pais e Filhos, da Legião Urbana

✦
Pais e Filhos — Legião Urbana — Epitáfios à Parte

Legião Urbana foi uma das primeiras bandas de rock brasileiras com as quais tive contato logo na infância graças à influência de meu irmão. E uma de suas músicas que sempre me marcou é justamente “Pais e Filhos”. Essa é uma melodia que começa tratando de um suicídio que faz referência direta a uma perda vivida pelo próprio vocalista, mas depois evolui para uma discussão sobre estrutura familiar onde a pergunta-chave que permeia toda letra é: o que é família?

A letra não se resume em momento algum a falar somente sobre perdas ou dilemas familiares mas, ao contrário disso, ao longo de seus vários versos, vai apresentando uma sequência de modelos familiares que fogem do padrão de comercial de TV onde o modelo de família hegemônico é o típico “pai+mãe+filho+filha”. Não, em Pais e Filhos, esse modelo tanto não existe como não corresponde à realidade de fato.

Só que assim como essa música não se resume a falar de perdas e famílias, ela também dá voz àqueles que formam as famílias de fato. “Quero colo, vou fugir de casa”ou “Estou com medo, tive um pesadelo” são as vozes de pessoas e, eu iria mais longe, de crianças e adolescentes em situação de desamparo procurando abrigo, segurança, conforto, empatia. E logo em seguida, já temos o outro ponto de vista, o dos pais que querem dar nomes de santos aos filhos quase como se isso funcionasse como uma espécie de ritual de benção para a sua cria. “Quero o nome mais bonito.”

Então vem o refrão que traz dois movimentos interessantes. O primeiro é o de fazer o link com o suicídio mencionado lá no início da música. O segundo, é o de trazer à tona o irremediável fator da morte como uma lembrança de que o amanhã, na verdade, não existe e que se o que tiver que ser feito hoje não o for, amanhã pode ser tarde demais. É a lembrança triste, mas fatídica, de que as pessoas morrem, seja pulando do quinto andar, seja de forma natural.

“Me diz por que que o céu é azul?” Essa é uma típica pergunta infantil e creio que todos concordamos com isso tranquilamente. Mas, o pedido que vem logo em seguida me parece um tanto transgressor! Que criança pediria para “explicar a grande fúria do mundo” se não fosse uma criança que já convivesse com essa fúria desde cedo? Crianças em situação de rua, por exemplo, ou aquelas que vivem em abrigos de acolhimento? Infelizmente, a realidade mostra que crianças nessas situações são muitas ainda que, muitas vezes, nós fechemos nossos olhos para elas.

Vem mais uma vez o jogo de vozes que os autores usaram anteriormente, mas que aqui ganha uma nova perspectiva – retomando o que falei no início do texto sobre família. Nos trechos que se seguem após os dois questionamentos da segunda estrofe, temos pelo menos cinco versões de estruturas familiares diversas. São famílias que não são parecidas entre si, que não compartilham nada em comum nem em termos de história, nem em termos de estrutura. Famílias cujo cuidado parental recai sobre os filhos. Famílias cujo pai está distante. Família em que não há um teto ou uma estrutura de segurança ou a completa ausência de família de fato. Eu acho esse trecho o ponto alto dessa música porque coloca à tona toda a discrepância do discurso de família feliz pregado pela grande mídia através das novelas e comerciais de TV enquanto que a realidade é mais brutal e cruel e a única verdade que se sobressai nisso tudo é que não há um modelo de família porque família é plural.

“Sou uma gota d’água. Sou um grão de areia.” A contradição perfeita entre a finitude da unidade diante da completude do universo. Uma pessoa não forma uma família, mas uma família não existe sem pessoas. E é nesse universo de pessoas que compartilham uma vida em comum e que decidem se juntar como uma família de fato que surgem os conflitos geracionais, a delegação de autorresponsabilidade, o contraste entre o outro e o eu e, no fim, a constatação de que, na realidade, em algum sentido estamos todos caminhando para nos tornarmos novos pais e filhos, carregando o legado do que vivemos ao mesmo tempo em que preparamos o terreno para os que virão depois de nós.

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã porque, se você parar pra pensar, na verdade não há.”

comportamento perspectiva realidade sociedade vida

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.