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· 20 fev 2026 · 6 min de leitura

A domesticação da barbárie

Créditos da imagem: Allan Franca do Carmo.

Estava eu rolando o feed numa rede social qualquer quando me deparo com uma postagem de uma pessoa que sigo se referindo a um caso de violência ocorrido muitos anos atrás em Santa Catarina. O caso em questão é o do menino Gabriel Kuhn, morto em 2007 de forma que eu prefiro não detalhar aqui porque, além de não querer dar engajamento para algo tão atroz, imagino que existam outras pessoas que, como eu, vão ficar consternadas diante da imensa monstruosidade que o caso apresenta. Contudo, apesar de lamentar que minha curiosidade tenha me feito descobrir algo tão ruim, ao mesmo tempo ela me fez refletir sobre o que me parece ser uma espécie de socialização da violência que conduz a uma domesticação da barbárie tal como sugere o título deste texto. A violência tem se tornado comum em nossos dias, temos nos tornado cada vez mais tolerantes a situações que, em outros tempos, seriam completamente rechaçadas. São casos de todos os tipos, seja racismo, xenofobia, assassinatos, brigas, crueldade. A normalização do mal torna-se cada vez mais a régua social que as pessoas têm seguido sem questionar e sem criticar de modo que, hoje, as pessoas têm aceito vivenciar situações cada vez mais graves.

Em 2018, escrevia sobre esse fenômeno ainda sem saber nomeá-lo. Falava sobre a insensibilização que nos fazia ver um corpo jogado na rua e sequer esboçar reação, sem perceber que aquele corpo éramos nós.

Talvez muitos de nós pensem que a violência dos dias atuais é uma coisa recente e isso até tem um pouco de verdade, mas eu acredito que o que tem ocorrido é que tudo tem se tornado público mais facilmente especialmente porque as redes sociais têm favorecido isso abertamente. A domesticação da barbárie não começa pela violência em si mas pelo que vem antes dela e, no contexto atual da sociedade e do desenvolvimento tecnológico, não é difícil supor e até comprovar que as mídias sociais são grandes parceiras desse fenômeno. Essa domesticação começa quando, pouco a pouco, passamos a tolerar certas “microagressões” que, numa primeira análise, parecem não ter grande relevância mas que, no decorrer das coisas, somam-se a outras tantas que, no fim e meio que por osmose, passamos a tolerar coisas piores até atingirmos certo grau de insensibilidade a elas. O caso Gabriel Kuhn que me serviu de gatilho para este texto ocorreu muitos anos atrás mas, já naquela época, pessoas alheias se valiam de seus dispositivos para emular uma espécie de folhetim policial da série B para conseguirem sua própria audiência ainda que, para isso, tivessem que romper com princípios como privacidade, direito-penal e civil, ou mesmo com o avançar das investigações. Nos dias de hoje, surge a pergunta: o que as pessoas têm feito para conseguir visualizações nas redes sociais, ou então, o que elas têm feito questão de publicizar tão enfaticamente que, em outros tempos, seria considerado um absurdo?

Casos como o do menino Gabriel mencionado aqui ou mesmo o recente caso do Cão Orelha, que ganhou a grande mídia após descobrirem o histórico de violência dos envolvidos na tortura e morte do animal, ilustram como a violência tem se tornado irrestrita: são adolescentes envolvidos em crimes de violência extrema que, ainda que com um intervalo de tempo relativamente grande entre os dois, mostram como comportamentos bárbaros têm afetado a mentalidade não só de pessoas adultas mas também daqueles que estão em plena formação da própria identidade. Mas esses não são os únicos exemplos que existem por aí. Uma parcela considerável da população costumava estigmatizar essa discussão dizendo que somente pessoas pobres e marginalizadas se rendiam à violência urbana quando a realidade tem mostrado que isso está longe de ser a verdade. É a criação (ou a falta dela) que faz isso? É a cultura? O que é? Por que a impressão que se tem hoje é a de que a sociedade se tornou mais violenta? Ou, na verdade, o que ocorre é que as pessoas pararam de temer expor isso abertamente? Programas policialescos sensacionalistas existem desde sempre e eles não mudaram, em sua essência, nos últimos vinte anos. Contudo, todos podemos concordar que algo que realmente mudou é que, hoje, mais do que as mídias tradicionais, as redes sociais viraram o maior meio de comunicação da população e para a população.

Atualmente, as crianças aprendem a mexer em tablets e celulares antes mesmo de aprenderem a ler e escrever. Vivemos em uma época em que a geração atual nasce, cresce e vive transitando entre o mundo virtual e o real, com a fronteira entre esses dois se tornando cada vez mais tênue e delicada. O advento das IAs (inteligência artificial) facilitou ainda mais que as pessoas encontrassem seu próprio público e produzissem conteúdos que rompessem sua própria bolha e quebrassem o algoritmo porque nunca antes se tornou tão fácil ganhar audiência como nos dias atuais. Ainda que, de um lado, as IAs tenham otimizado o modelo de trabalho para as mais diversas áreas, do outro, permitiram que nichos focados em desinformação e fake news ganhassem ainda mais difusão e poder de manipulação com o crescimento das tecnologias de deep fake, produção de conteúdo em escala, manipulação de algoritmo. Não existe mais curadoria nem critério para o que circula na internet: o que importa é a busca pela audiência enquanto o rigor jornalístico é deixado de lado. Para tudo há um público e para todo público há um conteúdo, basta pesquisar. A violência atrai audiência e as crianças estão aprendendo isso cada vez mais cedo e se comportando cada vez mais em função disso. A violência tem se tornado norma e isso ocorre porque ela atrai público, atrai audiência, engajamento e monetização. A pergunta que fica é: o que vem depois? O que podemos esperar?

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