Silêncio

“Hoje, aos 32 anos, a surdez é uma parte deveras importante em minha vida; ela definiu muito de quem eu sou e, ainda que algumas pessoas insistam em dizer que eu não “sou” surdo, mas “estou” surdo, eu sigo pelo lado contrário e digo que sim, eu SOU surdo e isso não é lá um grande problema, ainda que não seja também uma virtude.”

Eu tenho surdez. Essa é uma realidade com a qual convivo desde parte de minha infância. Hoje, aos 32 anos, a surdez é uma parte deveras importante em minha vida; ela definiu muito de quem eu sou e, ainda que algumas pessoas insistam em dizer que eu não “sou” surdo, mas “estou” surdo, eu sigo pelo lado contrário e digo que sim, eu SOU surdo e isso não é lá um grande problema, ainda que não seja também uma virtude.

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Quando me tiraram do armário

Na verdade, naquele momento, tudo o que eu queria era não ser gay, ser “normal”, o menino heterozinho que vai trazer uma norinha pra mamãe, ter um filho, um casamento na igreja e todo aquele bla-bla-bla cristão.

Em novembro de 2016, escrevi um texto aqui no Epitáfios a Parte refletindo sobre a realidade que muitos gays vivenciam ao passar pela experiência de sair do armário. Para quem não sabe, a expressão “sair do armário” é muito popular na comunidade lgbt+ e significa, em poucos termos, o ato de se assumir lgbt+ numa sociedade essencialmente heteronormativa e o choque geralmente resultante desse confronto. No texto em questão, eu fazia um convite à comunidade gay a se por no lugar de muitos que se assumem lgbt+ e a oferecer suporte a essas pessoas para que elas não passem pelos vários cenários negativos que podem surgir diante dessa revelação. Em parte, esse texto foi inspirado em minha própria história de vida, em minha experiência traumática e não voluntária de me assumir gay. Como nunca falei sobre isso antes, resolvi aceitar a sugestão de um grande amigo e fazer um pequeno “exposed” desse momento peculiar de minha vida.

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Uma reflexão sobre verdade e mentira na fábula do menino e o lobo

“Verdade e mentira são lados de uma mesma moeda; ainda que distintas, ambas dizem respeito à mesma coisa, dizem respeito ao mesmo objeto de estudo a partir do qual se elabora uma informação.”

Avatar de Pedro H.C. de SousaEpitáfios a Parte

Existe uma fábula que retrata a história de um menino pastor de ovelhas que, entediado pelo seu trabalho, resolve fazer uma brincadeira para atrair a atenção de seus conterrâneos na aldeia onde vive. Durante o pastoreio de suas ovelhas, ele grita, desesperado: Lobo! Lobo! Seus companheiros, vendo sua aflição, correm para socorrê-lo e salvar as ovelhas do tal lobo. Ao chegarem ao local onde está o menino e constatarem que tudo não se passava de uma história inventada para atrair a atenção dos aldeões, eles, descontentes, deixam o garoto sozinho. O menino repetiu a brincadeira várias vezes ao longo dos dias e, a cada vez, os aldeões iam socorrê-lo, mas davam de cara com a mentira. Certa vez, porém, um lobo de verdade apareceu na região e o menino, agora realmente desesperado, correu a pedir ajuda, gritando a plenos pulmões “Lobo! Lobo!” Os aldeões, porém, já acostumados com as brincadeiras…

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Uma reflexão sobre verdade e mentira na fábula do menino e o lobo

“Verdade e mentira são lados de uma mesma moeda; ainda que distintas, ambas dizem respeito à mesma coisa, dizem respeito ao mesmo objeto de estudo a partir do qual se elabora uma informação.”

Existe uma fábula que retrata a história de um menino pastor de ovelhas que, entediado pelo seu trabalho, resolve fazer uma brincadeira para atrair a atenção de seus conterrâneos na aldeia onde vive. Durante o pastoreio de suas ovelhas, ele grita, desesperado: Lobo! Lobo! Seus companheiros, vendo sua aflição, correm para socorrê-lo e salvar as ovelhas do tal lobo. Ao chegarem ao local onde está o menino e constatarem que tudo não se passava de uma história inventada para atrair a atenção dos aldeões, eles, descontentes, deixam o garoto sozinho. O menino repetiu a brincadeira várias vezes ao longo dos dias e, a cada vez, os aldeões iam socorrê-lo, mas davam de cara com a mentira. Certa vez, porém, um lobo de verdade apareceu na região e o menino, agora realmente desesperado, correu a pedir ajuda, gritando a plenos pulmões “Lobo! Lobo!” Os aldeões, porém, já acostumados com as brincadeiras do menino, não deram atenção ao chamado, mesmo que o garoto gritasse com mais desespero do que nunca. O que acontece é que o lobo, faminto, devora, uma a uma, suas ovelhas, destroçando-as sem que ninguém o impedisse. O menino, entristecido, retorna à aldeia e, queixoso, reclama com o homem mais velho e sábio do local. O velho então olha para ele e diz “na boca do mentiroso, o certo é duvidoso”.

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Sobre a natureza da língua e sua relação com a realidade

Na metáfora do ovo e da galinha, a língua é, ao mesmo tempo, o ovo e a galinha; ela é resultado das experiências que vivemos ao mesmo tempo em que é, ela própria, a experiência.

O que veio primeiro? A língua ou a realidade? A história da humanidade passou a ser contada e conhecida com os primeiros registros litográficos dos “homens da caverna” há milhares de anos. Desde então, a linguagem evoluiu, se desenvolveu e, dela, nasceram as línguas modernas como as conhecemos hoje. Nesse meio tempo, a história das civilizações passou por inúmeras transformações e essas transformações ficaram expressas na língua de cada povo onde elas ocorreram. A língua sempre esteve lá para dar forma e cor a essas mudanças, para servir de registro histórico da passagem do homem aqui neste plano, para ser também a força motriz dessas mudanças, sendo a ferramenta para fechar acordos ao mesmo tempo em que servia para nutrir dissidências. Continue Lendo “Sobre a natureza da língua e sua relação com a realidade”

Uma resenha | Pílulas Azuis, de Frederik Peeters

“Pílulas azuis não é um livro difícil de ser lido, não possui ideias esdrúxulas ou absurdas demais. Aborda um tema importante para nós: o convívio com o HIV, e ainda ensina a como preveni-lo, passando por uma boa dose de educação sexual.”

Caminhava aleatoriamente pela livraria, um pouco procurando um rumo, um pouco me deixando levar ao acaso quando me deparei na seção de quadrinhos da loja. Logo de cara, muitas e muitas HQs de super-heróis fantásticos e com habilidades sobre-humanas em histórias fantasiosas dignas de uma adaptação cinematográfica. Mas, não era o que procurava, estava saturado de super-heróis, afinal, eles estão em todos os lugares, em todas as mídias. Como já estava ali, porém, insisti em procurar algo que se sobressaísse.

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Tudo novo de novo

“A mudança é uma constante da vida, faz parte de nossa evolução, das transformações que nos tornam quem somos. Mudar é resultado de viver e, por isso, não mudar é simplesmente não viver.”

A vida muda, esse é um fato tão concreto como o fato de que todos nós morreremos em algum momento. A mudança é uma constante da vida, faz parte de nossa evolução, das transformações que nos tornam quem somos. Mudar é resultado de viver e, por isso, não mudar é simplesmente não viver.

Mas, mudar é difícil, muito difícil. Exige paciência e um esforço ímpar para lidar com os imprevistos dos quais a mudança vem acompanhada. Lidar com o novo, com uma realidade totalmente diversa daquela com a qual estávamos acostumados, sair da zona de conforto sem a certeza de que voltará a ela, tudo isso pode mexer com o nosso emocional e nos desestabilizar a tal ponto que a simples menção à mudança gera em nós um ataque de pânico.

Em fevereiro deste ano, tive uma sequência de crises de pânico que me levaram a tirar licença médica do meu trabalho por três longos meses. Foi um momento difícil e, ainda hoje, carrego o peso de toda a turbulência pela qual passei nessa ocasião. Mas, a questão era que, naquele momento, eu passava por um conjunto de situações que tinha em comum o fato de que as coisas iriam mudar para mim. Eram mudanças grandes na saúde, em minha vida profissional, pessoal e acadêmica. Até então, sempre me considerei uma pessoa de personalidade firme e forte diante dos imprevistos da vida. Todavia, naquele momento, a única visão que tive de mim era a de que, no fundo, bem lá no fundo, eu ainda era uma criança frágil e indefesa tentando lidar com o mundo que se abria diante de mim.

A mudança nem sempre vem por vias fáceis e, quase sempre, ocorre sem o nosso controle. Durante minhas crises de pânico, o único pensamento que tinha era que eu precisava me esconder, me proteger do que quer que fosse que estivesse me afligindo. Não que houvesse um mal real de fato, mas durante as crises, sua mente se prende a um pensamento constante de que algo ruim está acontecendo, você entra num loop de desespero e opressão, o coração dispara, um suor frio corre pelas costas, a adrenalina pulsa em seu sangue e você só quer correr, fugir e gritar desesperadamente como se assim, todo aquele mal irreal deixasse de existir.

É irracional, eu sei, mas não existe razão numa crise de pânico. O problema dessas crises é que elas não existem sozinhas, estão acompanhadas por alguma outra comorbidade que as potencializa. No meu caso, é o transtorno de ansiedade generalizada – TAG. O TAG é a peça que te impede de lidar com as mudanças sem fazer seu cérebro andar a 220 voltz. Mil coisas rondam sua mente e você se vê pensando em um zilhão de compromissos ao mesmo tempo. Se sua mente fosse um computador de última geração, isso seria uma tarefa fácil, mas, infelizmente, somos humanos, somos carne e, nesse estado de pensamento, uma hora sua mente empaca, os pensamentos começam a ficar repetitivos, tudo ao redor acaba virando informação demais, luz demais, sons demais, toques demais. O mundo vira uma espécie de Twitter onde tudo ocorre num ritmo surreal o qual você é incapaz de acompanhar. Então vem o pânico, e depois do pânico, o cansaço, o maior cansaço que você já viu na vida.

Hoje, minha casa passa por mais uma das intermináveis obras pelas quais ela tem passado nos últimos dez anos. De repente, vi-me rememorando minha casa antiga, os cômodos como eles eram antigamente, antes de todo esse quebra-quebra natural em obras. Pensei no quanto minha vida mudou nesses anos todos, no quanto minha realidade atual se distanciou daquilo que um dia já foi e daquilo que um dia planejei. Sinto-me, de repente, furtado de mim, do meu passado, de minha existência. Tantas coisas mudaram desde então e, na maioria das vezes, não por escolha minha, mas como consequência de escolhas alheias a mim, tal como um efeito colateral. Isso me frustra, me deixa com a sensação de que perdi o controle de tudo, de minha vida, de quem eu sou. Mas, ao mesmo tempo, acende dentro de mim uma fagulha que me faz questionar o que eu posso fazer agora com o que tenho, com essa realidade que me cerca? Quais são meus sonhos? Há muito tempo não penso neles e, chego a dizer que, há muito, não tenho nenhum sonho de vida, eu me entreguei ao ostracismo e isso me fez empacar e voltar ao que disse lá no início, a não viver.

Se a vida é um conjunto de mudanças, eu preciso ser a mudança que eu quero e necessito. Nem todas as mudanças estão sob nosso controle, mas isso não significa que não podemos controlá-las de alguma forma. É preciso, pelo menos, tentar, persistir e não desistir.

Um abraço.

Viagem de trem

“O trem é a locomotiva das massas. O mundo passa aqui e, não à toa, o trem sempre está cheio, sempre carregado. Não só as pessoas são muitas, como também as emoções podem ser sufocantes.”

Ando todos os dias, de segunda a sexta, pelo menos algumas horas de trem. Não porquê goste, mas porque a força da necessidade me obriga a optar por este tipo de transporte. Viajar de trem é algo peculiar, são muitos risos e muitas vozes, as paisagens do lado de fora dos vagões mudam num piscar de olhos. No trem, a vida passa num relance e, sem perceber, nos locomovemos para além de um espaço físico, mas metafísico, um espaço cheio de histórias e enredos impossíveis onde todas as vozes tem sua vez e onde todos são o que são. Continue Lendo “Viagem de trem”

Blues

“A vida é assim, pequenas frações de momento. (…) Dar-se conta de sua insignificância diante de todo o resto não torna a sua vida menos louvável, pelo contrário, só o torna mais consciente de si e de seu lugar no universo.”

Enquanto escrevo, Muddy Waters toca na caixa de som. Hoje é mais um daqueles dias morosos, meio sem sal, um céu nublado, ameaçando chover, mas sem lançar uma só gota ao chão. Intercalado com o som da música, ouço os sons da vida fora das paredes de meu quarto. Lá fora, as crianças correm, brincam e gritam, felizes sem se dar conta de quão absurda pode ser a vida. Aqui dentro, escrevo coisas pouco otimistas sobre uma vida que não queria que fosse a minha, mas é.

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Banho de balde

“… banho de balde é, também, um ritual. É encarar aquele espelho d’água que te reflete e se reflete, que te encara de volta e te leva a um abismo sem fim de reflexões sobre a vida, a morte e, é claro, as contas a pagar. Porque quem toma banho de balde, vai por mim, tem muita conta a pagar.”

Eu acho engraçado que, em pleno ano 2019, tomar banho de balde seja uma prática ainda comum (ou o é apenas em meu universo particular, vá saber). Abrir a caixa d’água, pegar o canecão, transferir a água para o balde, depois levá-lo ao banheiro e, enfim, tomar o merecido banho. Parece trabalhoso, eu sei, e é, de fato, mas o banho de balde é, por assim dizer, um ritual, um misto de lavação do corpo e da alma que só quem passa por ele entende o que significa tomar um bom banho de balde. Continue Lendo “Banho de balde”

Electronic Maze

Venha se perder nesse labirinto e encontre a arte em você

Epitáfios a Parte

O que ninguém vê quando você está só.

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