Quem é você, o que você é?

“O que talvez seja de maior valor, no entanto, é a consciência que temos de nós mesmos, o nosso senso de individualidade e até de identidade porque, apesar de todas as visões dos outros sobre nós, temos também nossa própria visão sobre quem somos e ela, quase sempre, é determinante para a forma como você se coloca no mundo e em relação às outras pessoas.”

Assisti a série Ruptura (Severance, no original) na Apple TV+ e foi uma experiência um tanto reveladora. A série faz uma crítica direta, mas indigesta ao modelo de produção vigente nas grandes empresas do mundo inteiro e ainda, questiona essa ideologia positivista de se separar a pessoa que você é no trabalho daquela que você é fora dele. Não é um movimento muito fácil e por isso, na série, os funcionários da empresa que protagoniza o programa passam por um procedimento chamado ruptura em que eles segregam suas memórias em duas que são incomunicáveis entre si, mas que se alternam de acordo com o lugar onde as personagens se encontram.

Continue Lendo “Quem é você, o que você é?”

Expectativa & Realidade

“Para as pessoas de minha geração, a vida sempre foi uma promessa de que seria bem sucedida, de que teríamos bons empregos, uma família estável, carro na garagem, faculdade e todo o mais que é considerado símbolo de uma vida bem sucedida. Entretanto, a verdade é que, para a maioria de nós, essa é uma realidade total ou parcialmente distante de nós.”

Estou ouvindo no computador a música Release, da banda Pearl Jam. Confesso que sou um admirador dessa banda desde muitos anos por me imergir ao som de suas canções e alcançar um estado de melancolia e paz (é possível?) nessas ocasiões. Antes de começar a ouvir o álbum Ten deles, assisti alguns vídeos de apresentações da banda e sempre fico impactado com a potência que o vocalista coloca na interpretação de suas músicas, não é como se ele apenas performasse uma apresentação qualquer para angariar audiência, mas, longe disso, ele se entrega à suas apresentações de corpo e alma porque isso é, para ele, o mínimo que ele pode oferecer ao seu trabalho. E isso impressiona porque, olhando o histórico da carreira do Pearl Jam, é notável que eles tiveram um boom meteórico e logo se tornaram uma das bandas mais relevantes no cenário do grunge, estilo musical que é meu favorito até hoje. Mas, mesmo com esse boom, eles não perderam a essência do que eles são, não se deixaram levar pelo que era tido como comercial e isso é algo que me agrada muito pois ajudou a manter a identidade deles.

Continue Lendo “Expectativa & Realidade”

O autor reflete sobre o conceito de fé, definindo-a como uma convicção intransigente num poder superior. A postagem discute os aspectos positivos da fé; proporcionar conforto, fomentar a comunidade e fomentar a perseverança, mas também aborda os seus aspectos negativos; intolerância e seu uso para justificar danos. O autor, antes fervoroso na fé, revela um percurso de ceticismo, desilusão e questionamentos. No entanto, permanece o resquício de curiosidade agnóstica, principalmente quando confrontado com fenômenos inexplicáveis na vida do autor.

Hoje, eu tive um sonho. Nele, por algum motivo que me é desconhecido, eu era responsável por proteger algo de valor imensurável, eu lutava e combatia meus inimigos, até mesmo fui lançado ao ar com um deles em meus braços para derrotá-lo. O cenário ao meu redor era de cor púrpura e, no centro de tudo, havia uma torre muito grande a qual sustentava todo o local onde meu sonho se passava. Ao fundo, uma música era entoada com tanta firmeza e força de vontade pelas pessoas e entidades que lutavam ao meu lado. Era uma batalha difícil, a última batalha e eu era, por assim dizer, o estandarte das forças que lutavam para proteger aquele lugar e tudo o que ele representava. Se tivéssemos que morrer, morreríamos, pois nossa causa era a razão última de nossa existência e nada mais teria valor se ela fosse defenestrada. Infelizmente, não pude ver o final do sonho, acordei antes disso, mas a música entoada ficou na minha memória marcando meu dia e me fazendo pensar na palavra que dá título a este texto: fé.

Continue Lendo “Fé”

A morte como uma certeza para a vida

“É a vida e a morte andando, lado a lado, separadas por apenas um sopro, um sopro que muda tudo tão irremediavelmente que nada continua do mesmo jeito após isso.”

Quando nascemos, choramos. O choro é o nosso primeiro sinal de vida pós-uterina, é através dele que dizemos ao mundo que aqui chegamos e que, enquanto houver fôlego em nós, viveremos. Para alguns, a vida pode durar décadas. Para outros, sequer alguns minutos. Mas, o fato é que, em todos esses casos, vida e morte se unem por um laço único: o sopro. Ao nascer, berramos a plenos pulmões. Ao morrer, esavaziamos os mesmos pulmões com nosso último suspiro. O ar que circula na chegada ou na partida é o ar que marca o início e o fim da vida e é através dele que, em todo o tempo que aqui vivemos, marcamos nossa história e a de outros com a influência de nossa presença ou ausência. É a vida e a morte andando, lado a lado, separadas por apenas um sopro, um sopro que muda tudo tão irremediavelmente que nada continua do mesmo jeito após isso. Durante o choro de nosso nascimento, mudamos a vida daqueles a quem “pertencemos”, acrescentando não só uma boca a mais à mesa, mas também uma história a mais a ser vivida e compartilhada com os outros. Durante nosso último suspiro, damos adeus ao mundo e a tudo o que poderíamos fazer dali em diante, mas que não faremos mais porque, naquele momento, a vida decidiu que nossa história acabava ali e que nosso protagonismo, finalmente, chegava ao fim. É poético porque é o sopro que move tudo. E se olharmos além, veremos que ele move não somente nossas vidas individuais, mas o mundo como um todo; a areia soprada pelos ventos incessantes sobre o deserto do Saara, lá do outro lado do Oceano, chegam até aqui, no Brasil, e semeiam nossa Floresta Amazônica, dando vida e nutrientes a ela que, de outra forma, não conseguiria obter. E não para aí! O vento que sopra sobre a Floresta Amazônica é o que leva as nuvens com milhões de litros de água que se formam sobre ela até outras regiões do país criando um verdadeiro rio de nuvens que se move sobre nossas cabeças irrigando terras secas que, sem isso, seriam incapazes de sustentar a vida. O sopro da vida; sua presença move o mundo, sua ausência significa que tudo acabou. Ainda respiramos, mas já parou para pensar quantos, no dia de hoje, encerraram suas histórias e, talvez, você ainda nem saiba disso? Ou então, fazendo o caminho oposto, quantos novos bebês disseram olá a este mundo e estão fazendo a alegria de suas novas famílias? “A vida é um sopro”, dirá alguém. E não é mesmo? Num momento, você está aqui, no seguinte, sua existência não passa de lembranças e é sobre elas que deveríamos nos debruçar. Sobre nossas lembranças porque, afinal de contas, não é porque a vida é um sopro que devemos levar tudo de forma hedonista como se o fim fosse a única razão de existir. Há muito que se levar em consideração no espaço entre o choro do nascimento e o último suspiro porque o que se faz entre esses dois momentos diz muito não só de quem nós somos, mas de como vivemos. “O tempo não para” e é justamente por isso que um pouco de responsabilidade, consciência e prudência se fazem necessárias. Nossas vidas podem semear a floresta de outras pessoas e o mesmo pode acontecer na via contrária. Holisticamente falando, o todo está em um e o um está no todo e isso não é mera frase de efeito que uso aqui para encantar o jovem cirandeiro em busca de alguma reflexão profunda sobre algo. Vivemos num aquário, literal e figurativamente falando. Enquanto não formos capazes de atravessar as barreiras desse aquário, nossas vidas continuarão ligadas umas às outras infinitamente. E, para ser sincero, suspeito que mesmo se as barreiras forem desfeitas, essa ligação ainda permanecerá e isso diz muito sobre nosso futuro porque, afinal de contas, não vivemos todos para torná-lo o mais longo possível?

Deus: uma incógnita

“É difícil encontrar deus quando o mal prevalece sobre todas as coisas. (…) Mas, eu queria, do fundo do meu coração, que deus estivesse aqui, que ele colocasse sua mão sobre meu ombro e me consolasse nem que fosse por alguns segundos.”

Eu cresci em família cristã. Por muitos anos, a vida na igreja foi uma parte constante e alegre em minha história e isso não é e nunca foi demérito algum. A vida na igreja me trouxe muitas experiências felizes e satisfatórias, amigos que tenho como irmãos e, mais do que isso, serviu de base para minha concepção de vida e filosofia. Eu não seria o mesmo sem essa parte importante em minha história.

Continue Lendo “Deus: uma incógnita”

Silêncio

“Hoje, aos 32 anos, a surdez é uma parte deveras importante em minha vida; ela definiu muito de quem eu sou e, ainda que algumas pessoas insistam em dizer que eu não “sou” surdo, mas “estou” surdo, eu sigo pelo lado contrário e digo que sim, eu SOU surdo e isso não é lá um grande problema, ainda que não seja também uma virtude.”

Eu tenho surdez. Essa é uma realidade com a qual convivo desde parte de minha infância. Hoje, aos 32 anos, a surdez é uma parte deveras importante em minha vida; ela definiu muito de quem eu sou e, ainda que algumas pessoas insistam em dizer que eu não “sou” surdo, mas “estou” surdo, eu sigo pelo lado contrário e digo que sim, eu SOU surdo e isso não é lá um grande problema, ainda que não seja também uma virtude.

Continue Lendo “Silêncio”

Uma reflexão sobre verdade e mentira na fábula do menino e o lobo

“Verdade e mentira são lados de uma mesma moeda; ainda que distintas, ambas dizem respeito à mesma coisa, dizem respeito ao mesmo objeto de estudo a partir do qual se elabora uma informação.”

Existe uma fábula que retrata a história de um menino pastor de ovelhas que, entediado pelo seu trabalho, resolve fazer uma brincadeira para atrair a atenção de seus conterrâneos na aldeia onde vive. Durante o pastoreio de suas ovelhas, ele grita, desesperado: Lobo! Lobo! Seus companheiros, vendo sua aflição, correm para socorrê-lo e salvar as ovelhas do tal lobo. Ao chegarem ao local onde está o menino e constatarem que tudo não se passava de uma história inventada para atrair a atenção dos aldeões, eles, descontentes, deixam o garoto sozinho. O menino repetiu a brincadeira várias vezes ao longo dos dias e, a cada vez, os aldeões iam socorrê-lo, mas davam de cara com a mentira. Certa vez, porém, um lobo de verdade apareceu na região e o menino, agora realmente desesperado, correu a pedir ajuda, gritando a plenos pulmões “Lobo! Lobo!” Os aldeões, porém, já acostumados com as brincadeiras do menino, não deram atenção ao chamado, mesmo que o garoto gritasse com mais desespero do que nunca. O que acontece é que o lobo, faminto, devora, uma a uma, suas ovelhas, destroçando-as sem que ninguém o impedisse. O menino, entristecido, retorna à aldeia e, queixoso, reclama com o homem mais velho e sábio do local. O velho então olha para ele e diz “na boca do mentiroso, o certo é duvidoso”.

Continue Lendo “Uma reflexão sobre verdade e mentira na fábula do menino e o lobo”

Blues

“A vida é assim, pequenas frações de momento. (…) Dar-se conta de sua insignificância diante de todo o resto não torna a sua vida menos louvável, pelo contrário, só o torna mais consciente de si e de seu lugar no universo.”

Enquanto escrevo, Muddy Waters toca na caixa de som. Hoje é mais um daqueles dias morosos, meio sem sal, um céu nublado, ameaçando chover, mas sem lançar uma só gota ao chão. Intercalado com o som da música, ouço os sons da vida fora das paredes de meu quarto. Lá fora, as crianças correm, brincam e gritam, felizes sem se dar conta de quão absurda pode ser a vida. Aqui dentro, escrevo coisas pouco otimistas sobre uma vida que não queria que fosse a minha, mas é.

Continue Lendo “Blues”

Surdez

“O som dos metais, dos passos apressados, das buzinas e sirenes na cidade, a gritaria dos vendedores, o apito dos trens e metrôs, essa balbúrdia altissonante e constante que retumba por todos os cantos da cidade. Como se pode viver com isso? Como se pode existir com isso?”

Uma vez, uma amiga com quem eu compartilhava um estágio questionou-me o fato de eu dizer que eu sou surdo. Segundo ela, eu “não sou” surdo, eu “estou” surdo. Eu entendi seu ponto e, de certo modo, até concordo com ele. Todavia, parece-me que ela não foi capaz de entender o meu, o fato de que, para mim, a surdez sempre foi algo mais do que mera deficiência, mas algo que determinou profundamente características que, hoje, marcam minha personalidade.

Continue Lendo “Surdez”

Textículos aleatórios

Textículos aleatórios publicados em alguma rede social alheia.

Perguntei para o tempo quanto tempo o tempo tem. “Todo o tempo do mundo”, ele disse. Quanto tempo tem o mundo? “Todo o tempo que o tempo tem”.

Continue Lendo “Textículos aleatórios”

Electronic Maze

Venha se perder nesse labirinto e encontre a arte em você

Epitáfios a Parte

O que ninguém vê quando você está só.

VISCERAL BRANDS

DEEPMEANING BRANDBUILDING