Abril · 2026

Epitáfios à Parte

O que ninguém vê quando você está só

· 10 out 2016 · 3 min de leitura

Eu, Pedro H., 27 anos, desempregado e desiludido

Sobre aquele sentimento de incompetência que assola multidões.

Epitáfios à Parte. ©2016. Todos os direitos reservados.

Nunca parei muito tempo para pensar na minha vida. Aliás, nunca pensei muito na minha vida. Venho de uma geração que cresceu com a ideia de que “podemos ser o que quisermos”. Doce engano. A realidade se mostrou mais dura do que o esperado e, no fim, terminei sem muita coisa da qual pudesse me orgulhar. A verdade é que hoje, quando olho para o meu passado, me sinto um verdadeiro idiota. Mas, talvez eu nem seja tão idiota assim, o problema é que a geração que cresceu ouvindo que poderia ser o que quisesse é a mesma geração que cresceu ouvindo que, se não conseguisse isso, era incompetente. E isso dói, machuca e pesa na alma. Você começa a comparar sua vida com a de outras pessoas, especialmente a galera que estudou contigo e se impressiona com o fato de que muitos deles já estão formados, têm casa, família, carro na garagem etc. Eles, aparentemente, conseguiram tudo o que você, o incompetente, não conseguiu. Mais uma vez, aquele sentimentozinho de fracasso surge na sua mente e te faz querer se recolher ao seu cantinho de insignificância e sumir do mundo.

As gerações que vieram antes da minha (a galera de 1980 pra baixo) cresceu muito responsável, focada, concentrada num objetivo que, mesmo pouco diverso e agradável, garantia alguma estabilidade de vida. A galera que veio depois dos anos 1980, porém, cresceu muito longe do mundo real, por assim dizer. E é, de certo modo, até compreensível. Nascemos numa época em que o Brasil abria as portas para a democracia e crescimento social, uma época em que saíamos da temida ditadura e vivíamos o retorno do governo livre. Os pais dessa época queriam dar aos filhos o que eles não tiveram: uma vida mais fácil e com mais oportunidades.

Então crescemos, entramos na faculdade, até nos formamos, mas alguns (um grande número) ficaram para trás, perdidos num sentimento de desconforto, de não pertencimento e incompletude. E tudo nasceu da ideia de que poderíamos ser tudo o que quiséssemos, só que quando se pode ser tudo, geralmente, se acaba não sendo nada.

A ideia de que o mundo e o nosso futuro estavam em nossas mãos entrou em choque quando a realidade nos mostrou outra coisa. Nosso futuro nunca esteve em nossas mãos, de fato, e, verdade seja dita, nunca soubemos onde nosso futuro esteve. Vivemos procurando nos encaixar, nos adaptar, ingressamos numa faculdade X, começamos um trabalho Y, iniciamos um projeto Z. Juntamos tantas coisas, tantas tarefas porque, no fundo, não sabemos o que fazer de verdade.

Costumo dizer que a vida era mais simples antes do advento das redes sociais. Mais simples porque, ainda que existisse a possibilidade de a grama do vizinho ser mais verde do que a sua, você não via isso. Hoje, com a infinidade de redes sociais em voga (e outras tantas surgindo diariamente), o mundo inteiro parece mais verde do que o quintal da sua casa. São tantos rostos bonitos, vidas realizadas, negócios bem sucedidos, famílias consolidadas. O sucesso salta das telas dos tablets e smartphones. Enquanto isso, você fica na sua, evita encontros de ex-alunos, corta vínculos com as pessoas do seu passado e tenta, na medida do (im)possível, não deixar que descubram que você, aos 27 anos, se encontra desempregado, não formado e desiludido.

Até a próxima.

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