Abril · 2026

Epitáfios à Parte

O que ninguém vê quando você está só

· 1 mar 2026 · 3 min de leitura

Mini Conto | Enforcado

Vendo o rumo que as coisas haviam tomado, o desespero tocou-lhe a alma num assombro. Um misto de tristeza e culpa começara a correr por suas costas e a consciência do que fizera pesara em sua mente como uma enorme montanha. O homem que o acolhera de braços abertos agora estava pregado a uma cruz. Porém, mais do que o pesar de sua traição, pesava-lhe ainda mais saber que, mesmo suas intenções sendo já conhecidas, nem por isso Jesus deixara de tratar-lhe como irmão. Com um beijo em sua testa, Cristo traçara o destino dos dois e por trinta moedas entregara a própria vida para cumprir a profecia. Enquanto isso, Judas de Iscariotes seguiria dali para sempre conhecido como aquele que traiu o filho de Deus. O discípulo que entregara o Messias aos homens para que sua carne fosse sacrificada num espetáculo vil e despudorado.
Todavia, Judas, esse Judas traidor ajudou a dar luz à glória do filho de Deus, pois, sem ele, não haveria sacrifício nem, portanto, ressurreição. Judas de Iscariotes, enforcado em sua solidão silenciosa, sacrificara a própria salvação para ser parte de um destino que havia sido traçado antes do tempo ser tempo. Esse Judas era um peão num tabuleiro de xadrez, parte de um jogo que, ainda hoje, está a prosseguir ininterruptamente. Judas, o traidor, foi o homem que, diante de todos os outros discípulos, seguiu a maré do destino e se deixou afogar por ela. Manchou a própria existência para que a vida de Cristo fosse glorificada e exaltada por todos os séculos seguintes. Judas viveu à sombra para só então surgir no momento derradeiro em que aquele conhecido como o Filho de Deus se provaria como homem e derramaria seu sangue sobre a terra para consumar os planos de seu pai divino.
Judas morreu para que Jesus vivesse.
Judas morreu como um pária para que Cristo renascesse como O Glorificado. Judas anulou a própria existência para que a existência de Deus fosse reiterada. Naquele espetáculo solitário em que Judas tirou a própria vida, Jesus Cristo em sua cruz declarava “está consumado”. O céu se fez trevas e um tremor correu sobre a terra. Um temor assolou os corações dos homens e a carnificina que era o sacrifício do Nazareno se revelava, finalmente, como a vergonha da humanidade. E, no meio dessa vergonha, Judas morreu sem lar, sem testemunhas e sem perdão para que o nome de Cristo fosse perpetuado, morreu para que Cristo se tornasse Deus.
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[Texto publicado originalmente no perfil do autor no Facebook em 21 de janeiro de 2018.]
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