Uma reflexão sobre verdade e mentira na fábula do menino e o lobo

“Verdade e mentira são lados de uma mesma moeda; ainda que distintas, ambas dizem respeito à mesma coisa, dizem respeito ao mesmo objeto de estudo a partir do qual se elabora uma informação.”

Existe uma fábula que retrata a história de um menino pastor de ovelhas que, entediado pelo seu trabalho, resolve fazer uma brincadeira para atrair a atenção de seus conterrâneos na aldeia onde vive. Durante o pastoreio de suas ovelhas, ele grita, desesperado: Lobo! Lobo! Seus companheiros, vendo sua aflição, correm para socorrê-lo e salvar as ovelhas do tal lobo. Ao chegarem ao local onde está o menino e constatarem que tudo não se passava de uma história inventada para atrair a atenção dos aldeões, eles, descontentes, deixam o garoto sozinho. O menino repetiu a brincadeira várias vezes ao longo dos dias e, a cada vez, os aldeões iam socorrê-lo, mas davam de cara com a mentira. Certa vez, porém, um lobo de verdade apareceu na região e o menino, agora realmente desesperado, correu a pedir ajuda, gritando a plenos pulmões “Lobo! Lobo!” Os aldeões, porém, já acostumados com as brincadeiras do menino, não deram atenção ao chamado, mesmo que o garoto gritasse com mais desespero do que nunca. O que acontece é que o lobo, faminto, devora, uma a uma, suas ovelhas, destroçando-as sem que ninguém o impedisse. O menino, entristecido, retorna à aldeia e, queixoso, reclama com o homem mais velho e sábio do local. O velho então olha para ele e diz “na boca do mentiroso, o certo é duvidoso”.

Essa fábula, muito conhecida pelo público em geral, é costumeiramente apresentada às crianças como forma de ensinar o valor da verdade e as consequências da mentira, Como toda fábula, possui uma moral evidenciada na fala do sábio ancião: na boca do mentiroso, o certo é duvidoso. Obviamente, o texto é passível de inúmeras interpretações, mas todas, invariavelmente, conduzirão à conclusão de que a mentira mancha a honra do indivíduo de tal forma que, mesmo quando este fala a verdade, ninguém acredita nele, pois sua fama de mentiroso o precede. Mas, é interessante notar que a mentira, aqui, não se situa sobre uma informação a respeito do menino, isto é, não reside numa inverdade dita sobre ele, mas sim, numa inverdade dita por ele. A mentira contada pelo menino gerou uma verdade no consciente coletivo dos aldeões: ele é um mentiroso. Dizer “ele é um mentiroso” é verdade ainda que, quando da chegada do lobo real, ele não estivesse mentindo de fato. Tem-se a criação da verdade a partir da mentira. Ao mesmo tempo, porém, ao assumirem uma posição cética diante dos pedidos de socorro do menino, os aldeões optaram por uma verdade dissimulada porque, ainda que o menino fosse um mentiroso, ele não estava mentindo naquele momento. A mentira do garoto gerou a desconfiança sobre sua verdade, de modo que essa verdade foi encoberta por outra não tão verdadeira assim a respeito de sua índole.

Nesse ponto, pretende-se destacar que, no caso da fábula em questão, o conhecimento da verdade veio através da mentira contada pelo menino, mas essa verdade tem dois lados: um real, relacionado à índole do garoto, e outro circunstancial, relacionado a atitude do menino. A verdade real reside na declaração “ele é mentiroso”. A circunstancial reside no fato de que ele pode ou não estar mentindo outra vez. Esse “pode ou não estar mentindo” é o que torna essa uma verdade dissimulada. Dissimulada porque se vale de um ceticismo radical que recusa a possibilidade de que o menino pode estar falando a verdade também diante de seu histórico anterior de mentiras. No fim, o menino é vítima de sua própria mentira.

O ciclo da mentira é curioso nessa fábula porque ela ocorre em dois movimentos: do menino para os aldeões e dos aldeões para o menino. No primeiro caso, a mentira nasce no falso pedido de socorro aos aldeões. Os aldeões são as vítimas da mentira. No segundo caso, a mentira nasce na crença de que o garoto está mentindo outra vez, ainda que isso não seja verdade. Nesse caso, o garoto é vítima de sua sina. Pode-se equiparar ambas as mentiras? Não. Mas, nesse ponto, chama a atenção os movimentos que essas mentiras executam na história. Quando o garoto mente consecutivas vezes, essa mentira cria uma verdade: ele é um mentiroso. Porém, essa verdade acaba por culminar numa mentira: a crença de que ele está mentindo de novo. Tem-se aqui um efeito em cascata que leva a uma disrupção no processo natural das coisas. Se o menino nunca houvesse mentido, os aldeões teriam-no socorrido, espantado o lobo e salvado as ovelhas. Mas, como ele mentiu e, mais importante, persistiu nessa mentira, o que restou foi a desconfiança sobre suas alegações. A mentira gerou o caos que conduziu à perda do rebanho e à má fama dada ao garoto. Se essa mentira tivesse ocorrido apenas uma vez, teria havido o mesmo desenrolar dos fatos que houve? Provavelmente, não. Uma das coisas que chama a atenção aqui é a persistência da mentira, a continuidade de sua manifestação tal como no velho ditado que diz que “uma mentira contada mil vezes acaba por se tornar verdade”. E esse é um fenômeno, no mínimo, intrigante. A persistência da mentira modifica a visão de um aspecto qualquer sobre o mundo, o outro, a realidade no meio de um grupo de pessoas e gera uma reação coletiva contrária a ela.

Mas, por que esse diálogo sobre a fábula do menino e o lobo e os efeitos da verdade e mentira? Porque é necessário situar o leitor nos conceitos de verdade e mentira que serão explorados ao longo dessas linhas. A relação do homem com essas duas coisas e, por extensão, da própria sociedade com elas se reflete na forma como a realidade se constrói e na forma como as pessoas reagem a ela. A verdade, aquela que se constrói a partir da relação com o meio, é passível de múltiplas interpretações e cada interpretação gerará uma reação específica em cada indivíduo. Essa verdade construída é mutável, flexível, multifacetada. Obedece às vontades do momento e, por isso, obedece a interesses nem sempre claros. Verdade e mentira são lados de uma mesma moeda; ainda que distintas, ambas dizem respeito à mesma coisa, dizem respeito ao mesmo objeto de estudo a partir do qual se elabora uma informação. No caso do menino da fábula, poder-se-ia dizer que seu objeto de estudo era o lobo a partir do qual ele criara a mentira e através do qual ele sofrera a desconfiança para com a sua verdade. Todavia, numa análise mais profunda, fica claro que o objeto de estudo da fábula é o próprio menino e é a partir dele que se constrói duas imagens: a do mentiroso e a da vítima. O restante das alegorias apenas incrementa a construção da verdade – ou das verdades – em torno do menino, que sofre as consequências dessa construção sendo ele próprio parte da obra.

A análise da verdade permite conhecer a profundidade com que ela é construída e o objeto a que ela se refere. Aqui, é preciso concordar com a afirmação de que a verdade é algo construído ainda que, num sentido mais amplo, possa ser algo que exista independentemente da consciência de que ela exista. A verdade existe a partir do diálogo do homem com o meio, a partir do pensamento sobre o meio e a partir da descoberta do meio. Nesse contexto, a verdade flui no sentido <meio – homem> para que o homem possa construir suas concepções sobre o meio. Entretanto, aqui fala-se de uma experiência individual, não coletiva, pessoal. Todavia, o ser humano é uma criatura social e, portanto, precisa compartilhar com os outros integrantes de seu meio as verdades que ele próprio construiu e descobriu. Nesse ponto, a verdade passa a fluir do homem para o grupo e pode dizer respeito ao meio, ao grupo, ou a ele próprio, ainda que essas não sejam as únicas possibilidades. Quando essa verdade é compartilhada, ela se torna coletiva e sujeita a outros tantos tipos de incremento e aí, deixa de ser algo fixo para se tornar mutável e espontâneo.

A construção da verdade diz muito sobre como as pessoas reagem a ela, por isso é importante atentar-se a esse movimento, pois os resultados tendem a ser imprevisíveis. Ao mesmo tempo, essa construção diz muito, também, sobre as pessoas envolvidas e seus interesses. Na era da pós-verdade, onde tudo é relativo, nem sempre conhecer a verdade é o caminho para o pleno conhecimento. É necessário ir além, explorar suas facetas particulares, seu criador e seu objeto de origem. Vive-se numa era em que a verdade possui muitas faces e um dinamismo como nunca se viu antes, em grande parte, decorrente do grande desenvolvimento tecnológico em que se vive. As informações fluem num fluxo tão rápido, quase instantâneo, a notícia surge junto com o fato, em tempo real, precipitando as conclusões que, em outros tempos, aquele fato poderia ter. A fábula do menino e o lobo deixa de ser uma história ficcional para se tornar uma realidade em diferentes níveis. A tecnologia permitiu não só que a(s) verdade(s) alcançassem um maior número de pessoas num menor espaço de tempo, como também, permitiu a mesma coisa a qualquer mentira que possa ser contada. Onde e quando tudo é informação, as pessoas parecem pouco preocupadas com sua procedência e muito mais atentas ao que virá a seguir. Não há tempo para digerir as informações que se recebe através dos mais diversos meios, o que importa é que ela seja repassada independentemente de sua qualidade.

Neste sentido, é interessante notar como o fenômeno das fake news ganhou relevância nos últimos anos, especialmente no meio jornalista, influenciando questões de política, saúde pública, meio ambiente, entre outras, gerando um novo capítulo na era da informação onde o compromisso com a verdade passa a estar em segundo plano em prol do compromisso com a informação, seja ela qual for. Verdade e informação passam a andar separadas, ainda que não completamente desassociadas. Toda verdade continua sendo uma informação a respeito de algo, mas nem toda informação é uma verdade de fato. Disso, tem-se uma consequência importante dos avanços tecnológicos na comunicação dos dias atuais: junto com toda informação circulante, há muito ruído envolvido distorcendo a informação original. Volta-se aqui à questão da pós-verdade onde o apelo emocional que determinada informação possa ter vale muito mais do que a veracidade por trás dela. O que vale é o engajamento que ela pode incitar no meio onde for divulgada. Aqui, pode-se até dizer que nem a informação em si é o foco, mas sim o grau de engajamento que ela pode gerar entre os seus usuários/consumidores. Isso é fato, por exemplo, nas redes sociais onde cada interação gera uma reação em cadeia que pode resultar numa maior ou menor divulgação de uma determinada notícia o que, por sua vez, resultará num maior ou menor alcance de público. Não à toa, existem agências especializadas nas métricas de postagens em redes sociais e que usam esses dados para orientar seus clientes sobre como, quando e onde publicar determinado conteúdo. Na era atual, a reação precede a notícia diferentemente do que ocorria anos atrás, ou mesmo décadas atrás quando uma notícia poderia demorar dias para alcançar uma parcela significativa da população ou do mundo.

Que alcance teria hoje a mentira contada pelo menino aos aldeões e quais repercussões isso teria em sua sociedade e além dela? Se pensarmos que o mundo, hoje, se baseia numa estrutura globalizada, os efeitos de uma dada informação não se restringem apenas ao meio onde ela surge originalmente, mas podem, pelo poder da tecnologia em tempo real, alcançar um número imensurável de pessoas além do meio particular onde a notícia surgiu num tempo rápido demais para qualquer possibilidade de defesa e contra-argumentação, gerando uma reação em cadeia que pode culminar em muitos cenários, desde a ostracização da(s) pessoa(s) envolvidas, até mesmo ao linchamento virtual e físico delas. Não por acaso, notícias de “linchamentos acidentais” são tão comuns atualmente, grande parte por conta da divulgação de fatos sem a devida apuração correta e que expõe ainda, um desejo por justiçamento que ultrapassa a legalidade do Estado Democrático de Direito. A verdade saiu de cena para dar lugar ao que eu penso sobre ela. Não há um senso crítico que busque analisar os fatos correntes procurando seus atenuantes e agravantes nem, tampouco, respeito à legalidade das ações na esfera pública e particular. Em tempos em que tudo é informação, não há respeito ao espaço particular do indivíduo nem à sua privacidade ainda que, contraditoriamente, a defesa à privacidade seja uma pauta alvo de grande debate atualmente.

Se a fábula do menino e o lobo ocorresse nos dias atuais, ela seria notícia de um desses programas sensacionalistas que passam diariamente na TV aberta e que exploram maciçamente a desgraça humana com o objetivo de alcançar uma grande audiência. Se a fábula do menino e o lobo ocorresse hodiernamente, o menino seria sumariamente tratado como vilão e o lobo, apesar de irreal no início, seria visto como vítima de manipulação, os aldeões seriam os chamados “isentões” e as ovelhas, bom, elas seriam as vítimas do menino e não do lobo. Haveria também um tribunal não-oficial nas redes sociais e a fábula faria parte da programação da TV por toda a semana, debates seriam feitos com especialistas em criminologia para julgar a conduta do garoto, a sociedade seria dividida entre aqueles que apoiam o garoto e aqueles que são contra ele. Ainda, haveria pessoas destacando como o lobo é uma vítima da situação sendo manipulado e depois, descartado. Ninguém pensa nas ovelhas, elas só contam como vítimas do menino. Os aldeões seriam a metáfora da sociedade inerte diante das mazelas do estado. Esse seria o enredo de uma semana até que outra desgraça ocorresse e ocupasse o espaço na programação. Seriam criadas páginas nas redes sociais sobre o assunto e até perfis sociais em nome do menino, do lobo e dos aldeões. Nunca das ovelhas, elas só servem para reforçar a narrativa de que o menino é o vilão. “Há, mas e o velho sábio”? Pois é, ninguém falou dele e ninguém falará porque ele é a verdade óbvia sobre o fato, aquela verdade que ninguém está disposto a engolir. O velho sábio expõe a hipocrisia da pós-verdade, desse excesso de “racionalização” sobre tudo, dessa doutrina de suspensão de descrença em tudo. O velho sábio se baseia na verdade pelo que ela é, sua interpretação se sustenta na obviedade dos fatos, na objetividade que reside sobre eles. O problema da pós-verdade é que ela se sustenta numa visão subjetiva de mundo que descredita todos os fatos objetivos e observáveis sobre a realidade, reduzindo-os a mera interpretação dos fatos como se o fato de o quente ser quente fosse apenas uma forma de ver o mundo e não uma verdade concreta, observável e verificável.

Na era da pós-verdade, o menino, o lobo, os aldeões, o velho sábio e até as ovelhas seriam apenas personagens, eles não existem enquanto indivíduos, não existem enquanto universo particular. São apenas peças de um jogo discursivo para gerar engajamento na população até outra história melhor surgir. Na era da pós-verdade, não importa qual é a sua verdade, mas a que fim ela serve. Sendo assim, o que vale é o que ela pode me trazer, não o que ela me diz – bom ou mau. É aqui que reside seu grande perigo, pois abre precedente para censura e seletividade na eleição do discurso. A verdade torna-se sujeita aos interesses de terceiros e não mais existe como algo independente e superior a esses interesses. As fake news são o maior retrato de como a verdade se tornou algo subjetivo e manipulável para satisfazer interesses nem sempre claros de pessoas com intenções escusas e sem compromisso com a verdade pura.

Nesse ponto, fica claro que esse texto faz um apelo de retorno à objetividade e à razão como forma de a sociedade escapar da obscuridade alimentada pelo movimento da pós-verdade nos mais diversos meios da sociedade. No entanto, este texto não nega a importância de uma mentalidade subjetiva sobre a realidade, mas ressalta que é preciso, antes de tudo, estabelecer um compromisso com a verdade pura e objetiva a fim de que as bases que estruturam nossa sociedade, nosso conhecimento sobre o mundo, a realidade, o outro, etc., sejam mantidas e reforçadas.

Até a próxima.


Texto revisado em 23 de maio de 2021.

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

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