Quando me tiraram do armário

Na verdade, naquele momento, tudo o que eu queria era não ser gay, ser “normal”, o menino heterozinho que vai trazer uma norinha pra mamãe, ter um filho, um casamento na igreja e todo aquele bla-bla-bla cristão.

Em novembro de 2016, escrevi um texto aqui no Epitáfios a Parte refletindo sobre a realidade que muitos gays vivenciam ao passar pela experiência de sair do armário. Para quem não sabe, a expressão “sair do armário” é muito popular na comunidade lgbt+ e significa, em poucos termos, o ato de se assumir lgbt+ numa sociedade essencialmente heteronormativa e o choque geralmente resultante desse confronto. No texto em questão, eu fazia um convite à comunidade gay a se por no lugar de muitos que se assumem lgbt+ e a oferecer suporte a essas pessoas para que elas não passem pelos vários cenários negativos que podem surgir diante dessa revelação. Em parte, esse texto foi inspirado em minha própria história de vida, em minha experiência traumática e não voluntária de me assumir gay. Como nunca falei sobre isso antes, resolvi aceitar a sugestão de um grande amigo e fazer um pequeno “exposed” desse momento peculiar de minha vida.

Quando alguém me pergunta como foi sair do armário, geralmente digo que eu não queria sair dele. Essa é a primeira informação que você precisa ter em mente durante a leitura deste texto: eu não queria sair do armário. Veja bem, eu tinha 18, quase 19 anos quando a bomba explodiu e minha vida virou uma bagunça sem eira nem beira, e a pior parte disso tudo era que eu estava metido num verdadeiro vendaval de emoções que eu sequer tinha algum controle. Não foi algo que eu procurei, que eu me esforcei para ter ou que eu queria de alguma forma. Na verdade, naquele momento, tudo o que eu queria era não ser gay, ser “normal”, o menino heterozinho que vai trazer uma norinha pra mamãe, ter um filho, um casamento na igreja e todo aquele bla-bla-bla cristão. Aliás, ainda nessa época, a igreja era uma parte muito importante em minha vida e esse conflito gerado pela minha saída do armário pôs em xeque muito do que eu pensava sobre a igreja, deus e a religião. Como eu disse, tudo estava uma bagunça sem precedentes e eu simplesmente não sabia lidar com isso.

A segunda informação que você precisa ter em mente é que eu não “saí” do armário, mas sim, fui tirado à força dele. Isto é, meu ato de me assumir gay foi completamente compulsório, involuntário, coercitivo. Eu me assumi gay porque, de repente, todo mundo a minha volta encasquetou-se com o fato de terem achado sites gays no meu histórico de navegação no computador do trabalho. Para se ter ideia de como eu era um garoto realmente sem noção das coisas, em meu primeiro emprego, eu resolvi que era uma boa ideia acessar sites gays no computador do trabalho. Sim, eu sei, burrice demais de minha parte. Eu tenho sincera vergonha desse episódio, mas enfim, aconteceu e foi graças a esse deslize que minha vida, no período entre 2007 e 2009, virou um pequeno inferninho na terra. Resumindo a história, eu acessei sites gay no pc do trabalho e as outras mui amabilíssimas colegas (ironia) que trabalhavam comigo acharam meu histórico de navegação e decidiram que seria legal compartilhar isso com deus e o mundo. Eu trabalhava num escritório familiar cujo dono era amigo de minha família e pastor de uma igreja qualquer. O assunto foi rodando entre a família dele que resolveu compartilhar com os clientes do escritório e, por fim, com a minha família. Nossa, tem tanta “família” nas últimas linhas, mas isso é proposital porque, de fato, o ambiente era bem familiar. Quando a coisa chegou à minha casa, a bomba explodiu de vez na minha cara. Até então, eu não estava sabendo de nada, nem imaginava que alguém pensasse “vixe, o Pedro é gay”. Então, da noite para o dia, um conflito diabólico se instalou e eu me vi sozinho, nu e desprotegido.

Talvez, você pense “ah, mas quem mandou acessar site gay no pc do trabalho?” e eu vou concordar mesmo que esse foi meu maior erro e deixo aqui como lição para todos vocês: não acessem sites comprometedores em computadores públicos. Não tenho problema em admitir esse erro. Meu problema maior era que eu era um garoto de 18 anos descobrindo a própria sexualidade sem o apoio de ninguém, nem de amigos, família ou qualquer outra pessoa. Eu era cristão fervoroso, praticante da religião, participativo na igreja que frequentava, era a típica figurinha do menino escolhido por deus. Mas, como você deve saber, um dos ensinamentos do cristianismo diz que a homossexualidade é abominável aos olhos de deus. Logo, imagine o conflito que eu sentia quando passei a perceber que eu me sentia mais atraído pelos outros garotos do que pelas garotas. Eu não queria ser gay, não desejava isso jamais, orava fervorosamente para que deus me “curasse” e me tornasse normal, homem, livre dessa “abominação”. A igreja põe muita culpa sobre você quando tu não consegue lidar com suas próprias questões pessoais, tudo vira uma questão de “resistir ao Diabo” esperando que ele fuja de você. Mas, como resistir ao Diabo quando é seu próprio corpo e mente que estão lutando do lado diferente? Por todos os lados eu ouvia as pessoas dizendo que homossexualidade é pecado, perversão, que os gays irão para o inferno, que gays são abominação. Eu ouvia isso todos os dias e em todos os lugares. Então, quando minhas “colegas” de trabalho resolveram que era hora de me expor ao mundo, eu não tinha condições de lidar com aquilo tudo, não tinha sequer conhecimento para digerir toda aquela situação. Pessoas que eu amava viraram a cara para mim, minha família virou a cara para mim, todo mundo, de repente, virou as costas para mim. Eu estava muito sozinho, desiludido porque mesmo deus, de quem eu esperava algum tipo de resposta ou consolo, não se mostrou para mim e todos os seus asseclas só sabiam me dizer o quanto minha “condição” era aberrante.

Na mesma época, eu havia sido aprovado no vestibular de duas grandes universidades públicas no Rio de Janeiro. Por causa disso, tive de ouvir de meu ex-patrão que eu jamais conseguiria concluir meu curso porque eu era pobre. Acabei não concluindo mesmo, mas, desde 2008, tive cerca de dez aprovações em vestibulares de IES públicas diferentes no Rio de Janeiro, tendo cursado umas tantas faculdades. A universidade acabou sendo meu ópio adormecedor de minha própria dor. Eu entrei no ensino superior com a intenção de fazer desse período de minha vida a minha carta de alforria. Eu estava perdido, solitário e um tanto sem rumo, a universidade parecia um paraíso de emancipação aos meus olhos, então ela se tornou meu templo da liberdade hedonista. Eu estava inconsequente, já tinha chutado o pau da barraca com todo mundo que eu achava que se importava comigo, então não restavam mais muitas coisas a serem preservadas. Como minha família já sabia de minha sexualidade, resolvi que não iria escondê-la na faculdade, ainda que usasse um pequeno eufemismo para disfarçá-la: até segunda ordem, eu era bissexual.

Não vou negar a quem me lê o fato de que eu sinto, ainda hoje, certa mágoa, tristeza e raiva por tudo que vivi nesse período. Depois de muitos anos refletindo sobre esse assunto, a conclusão a que eu chego é que a coisa toda teria sido muito diferente se eu tivesse, pelo menos, um amigo em quem me apoiar. Eu fui o primeiro do meu círculo de amizades da época a se assumir gay e, talvez por medo ou sei lá o que, alguns desses amigos não lidaram bem com esse pequeno fato sobre mim. Nesse sentido, a universidade foi determinante para que eu me reconhecesse e me aceitasse, ainda que eu estivesse um tanto tresloucado em determinados momentos. O que me causa mais tristeza é o fato de que as pessoas que me expuseram, que me humilharam, que tornaram minha vida um inferno sequer tiveram a capacidade de me conhecer, me perguntar se tudo aquilo era verdade. Tudo foi feito pelas minhas costas e eu só fui incluído no “espetáculo” quando a merda já havia explodido por todos os lados. Eu errei por ter acessado site gay no computador do trabalho? Sim, errei. Mas, ninguém veio me perguntar o que aquilo significava para mim, como eu me sentia, como eu entendia as questões sobre minha sexualidade. Eu fui lançado num tribunal onde eu era acusado de um crime que eu não sabia que havia cometido e condenado por algo que eu não sabia o que era. Eu sou órfão de pai. Naquela época, meu ex-patrão era o mais próximo que eu tinha de uma figura paterna, isso é algo que sempre fez muita falta para mim. Eu o respeitava muito e achava que a recíproca era verdadeira. Eu me enganei, infelizmente.

Quando me perguntam como foi sair do armário, eu digo que foi um estupro. Talvez você pense que essa seja uma comparação desproporcional, mas, pense bem, como se chama a situação em que você tem sua autonomia violada, perde todo o controle sobre si mesmo, é humilhado, rechaçado, ferido e não tem sequer o direito de se defender? Eu nunca quis sair do armário. Tudo que eu queria era tempo, tempo para me conhecer, me descobrir e me aceitar, tempo para entender todas as mudanças físicas e psicológicas que estavam ocorrendo em mim. Eu só queria tempo para que, se eu, de fato, me descobrisse gay, pudesse assumir isso sem medo e com a plena confiança que tem aqueles que conhecem a si mesmos. Eu não tive isso. Eu fui tirado do armário à força e quando tentei voltar a ele, haviam-no destruído e lançado fogo sobre os seus restos. Não bastava estar sozinho e abandonado, eu não tinha mais onde me esconder. Sim, este é um texto triste e essa é uma tristeza com mais de uma década de idade, mas que hoje eu preciso por para fora, tirar de mim porque se não eu, quem?

Obrigado.

P.s.: fiquem com uma música que marcou grande parte de minha aventura de descoberta sexual.

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

Entre o ontem e o amanhã sou o hoje.

4 comentários em “Quando me tiraram do armário”

  1. Toda vez que ouço a palavra igreja me vem outra palavra HIPOCRISIA,não é raro ver escândalos nesse meio fora os que não são divulgados. Minha experie cia tb não foi das melhores nessa empresa chamada de igreja, no entanto creio que DEUS está em nós nas igrejas tenho total certeza que
    não está, tive experiências terríveis nas igrejas que não desejo para ninguém no entanto não sou gay mas fui mulher desquitada, quando se ainda usava essa palavra,é isso era como se eu tivesse uma lepra,as senhoras casadas me evitavam os maridos delas me queriam é eu com duas filhas pra criar é sem eira nem beira eu acabei casando com um”pastor”que na primeira oportunidade abusou de minha filha criança de 9 anos e então minha vida foi destruída.hoje sem o respeito da minha filha sem seu carinho sinto que talvez nunca me recupere dessa dor nem ela tb,DEUS NAO ESTA EM IGREJA NENHUMA.

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    1. Oi, Dora. Primeiramente, obrigado pelo seu comentário, é muito importante pra mim! Em segundo lugar, não posso discordar de você, infelizmente. Nos nossos dias, a igreja tem se associado a tantas coisas ruins que fica realmente difícil, se não, impossível não ver tudo isso como hipocrisia. Pregam um amor que não vivem e pior, seriam os primeiros a condenarem Cristo à cruz se ele retornasse.
      A igreja foi muito importante para mim, não nego, especialmente na infância e logo após perder meu pai. Mas já na juventude, ela virou um antagonista que, inclusive, apelou para uma tentativa de exorcismo quando, por inocência minha, confesse a um diácono que era gay. Então, hoje, igreja é o último lugar onde eu quero estar e me sinto triste por pensar assim. Mas, fazer o que?

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  2. Continuação do comentário anterior.pedro vc não está sozinho. Nessa e todos esses acontecimentos que vc relatou não pelo.fato de você ser gay é sim pela maldade do ser humano mesmo em não aceitar o humano como ele é

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