O autor reflete sobre o conceito de fé, definindo-a como uma convicção intransigente num poder superior. A postagem discute os aspectos positivos da fé; proporcionar conforto, fomentar a comunidade e fomentar a perseverança, mas também aborda os seus aspectos negativos; intolerância e seu uso para justificar danos. O autor, antes fervoroso na fé, revela um percurso de ceticismo, desilusão e questionamentos. No entanto, permanece o resquício de curiosidade agnóstica, principalmente quando confrontado com fenômenos inexplicáveis na vida do autor.

Hoje, eu tive um sonho. Nele, por algum motivo que me é desconhecido, eu era responsável por proteger algo de valor imensurável, eu lutava e combatia meus inimigos, até mesmo fui lançado ao ar com um deles em meus braços para derrotá-lo. O cenário ao meu redor era de cor púrpura e, no centro de tudo, havia uma torre muito grande a qual sustentava todo o local onde meu sonho se passava. Ao fundo, uma música era entoada com tanta firmeza e força de vontade pelas pessoas e entidades que lutavam ao meu lado. Era uma batalha difícil, a última batalha e eu era, por assim dizer, o estandarte das forças que lutavam para proteger aquele lugar e tudo o que ele representava. Se tivéssemos que morrer, morreríamos, pois nossa causa era a razão última de nossa existência e nada mais teria valor se ela fosse defenestrada. Infelizmente, não pude ver o final do sonho, acordei antes disso, mas a música entoada ficou na minha memória marcando meu dia e me fazendo pensar na palavra que dá título a este texto: fé.

O Google, baseado nas informações prestadas pelo Oxford Languages, define fé como a “confiança absoluta (em alguém ou em algo); crédito”. No senso comum, a fé é a crença inabalável em algo ou alguém que exerce poder absoluto sobre nós. É algo irracionável e, de certa forma, uma necessidade natural diante de coisas que não podem ser explicadas naturalmente. A fé não exige lógica, mas exige lealdade, confiança e um pouco de permissividade. A fé perdoa os erros de quem a ela se direciona ao mesmo tempo em que condena todos os que fogem dela. A fé é parcial, pouco diplomática e até mesmo autoritária. A fé não permite questionamentos, não quando esses questionamentos põem em xeque seus fundamentos. A fé mata e temos provas mais que suficientes disso ao longo da história da humanidade. A fé não é política, mas deseja todos os espaços que são da política – por isso seu autoritarismo. A fé não abre espaço para barganha; nela, ou você está com ela, ou está contra ela. Ela vive dessa dicotomia entre bem e mal que separa ao mesmo tempo em que agrega os que são seus dos que não são. Isso é a fé.

Mas, a fé também tem seus aspectos positivos. Ela nos dá sentido quando todo o nosso conhecimento se mostra incapaz de preencher essa lacuna. Ela nos dá um senso de comunidade quando encontramos pessoas que partilham do mesmo credo que nós. Ela nos permite superar as adversidades baseado numa ideia de que tudo é passageiro e que há uma razão por trás de todas as coisas. A fé nos permite persistir, insistir e nunca desistir. E, ainda que hajam muitos maus representantes da fé ao redor do mundo, é igualmente numeroso o grupo daqueles que usam a fé em prol do outro, em prol de ajudar os necessitados, de fazer o bem sem olhar a quem, sem julgar e condenar por qualquer diferença que exista. Quando bem empregada, a fé tem na sua parcialidade, seu maior trunfo: a busca pelo bem maior. A fé é cega, não enxerga cor, religião, etnia ou o que quer que seja. A fé é magnânima, acolhedora, luz para os que estão nas trevas. A fé salva, isso é o que ela faz.

Há muito tempo eu não sei o que é ter fé. O ceticismo que hoje habita em mim não me permite sustentar uma crença inabalável em qualquer coisa que não seja regida pelas leis naturais do mundo. Para mim, o mundo é suficiente. Mas, nem sempre foi assim. Muitos anos atrás, eu fui um jovem crédulo e muito fervoroso que acreditava em deus e que ele era a razão de tudo que existia e que minha vida não precisava de outras coisas além de deus. A vida era simples, se houvesse algo que não pudesse ser explicado, tudo bem, era porque deus quis assim ou porque ainda não era o tempo de deus. Deus, nessa época, era o chamado “deus das lacunas”, preenchia todo buraco de alguma coisa inexplicável até que uma explicação razoável surgisse. Deus era o deus dos milagres mesmo que os tais milagres, em si, pudessem ser explicados por razões óbvias mais claras.

Muita coisa mudou desde então. Muitas questões surgiram em minha mente e, como disse agora a pouco, a fé não permite questionamentos. A perda da fé, da minha fé foi acompanhada de um sentimento de desencanto perante a humanidade, a igreja e até mesmo deus. A fé exige inocência e para se manter inocente, é preciso fechar os olhos para as mazelas do mundo e, por que não, da própria igreja. E isso é algo que exige bastante esforço pessoal e uma resiliência muito grande. Admiro quem consegue passar toda a sua vida crendo e sendo ativo na prática da fé sem se contaminar ou sem se desiludir. Definitivamente, eu não sou uma dessas pessoas.

Eu passei por várias fases em relação à fé, desde o menino crédulo e participativo na igreja até o crítico ferrenho e intolerante contra a fé. Hoje em dia, sigo uma linha mais próxima da política da boa vizinhança; não pratico nem sigo nenhuma fé, mas ao mesmo tempo não me encontro de todo fechado a ela. Mas, em dias como o de hoje, em que sonhos aleatórios permeiam minha mente me fazendo pensar no assunto, sinto que uma parte de mim – bem pequena, talvez – ainda tem o desejo insólito de reencontrar a fé, ou o caminho da fé. Nesses momentos, meu lado agnóstico se mostra bem pendente para o lado de deus, inebriando-se nas lembranças de meus tempos na igreja, de como eu era um jovem adorável e promissor na liderança religiosa e também de como eu não me importava com títulos, mas somente com adorar a deus e espalhar o seu evangelho.

Sim, eu sei, quem me conhece sabe que eu vejo a religião cristã como uma espécie de colonialismo moderno, então é contraditório eu falar num sentimento de saudade de “espalhar o seu evangelho”. Mas aqui, entra o lado positivo e cego da fé, porque, por não se permitir o autoquestionamento, a fé sempre se vê como o arauto da verdade, ela acredita de fato que é o caminho para a salvação e que, por isso, tem uma responsabilidade muito grande com as outras pessoas do mundo que não compartilham da mesma fé. O problema é que não existe só uma fé no mundo e, não por acaso, todas elas acham que são as donas da verdade. Logo, é muito difícil satisfazer a todos.

Eu não sei de verdade se eu acredito em deus ou não, se eu ainda tenho fé nele ou não. Passei por uma cirurgia recentemente depois de vários percalços que impediram que ela fosse realizada anteriormente, e todos ao meu redor dizem o quanto isso é milagroso e prova a intervenção de deus na minha vida enquanto eu vejo isso tudo como mera sucessão de “causos burocráticos”. Em primeiro lugar, não acredito mesmo numa intervenção divina em minha vida que, ao invés de me permitir alcançar algum nível de bem-estar, faz o contrário, degenerando minha saúde pouco a pouco ao longo dos anos e minando paulatinamente todas as oportunidades que eu tive de fazer algo que pudesse melhorar minha saúde. Então, não, nesse aspecto eu realmente não acredito em deus. Mas, se algo existe além de nós, acho que esse algo é indiferente a nós e nos observa como mero espectador da natureza. Se deus ou qualquer outro existe, eu não sei, mas acho que ele não se importa também.

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Autor: Pedro H.C. de Sousa

Entre o ontem e o amanhã sou o hoje.

2 comentários em “Fé”

  1. Acabei de ler o seu texto “Escoliótico” e foi uma leitura profundamente sensibilizante. Como cristão, quis saber sua visão sobre Deus e fé. Pude perceber a sinceridade em tudo que foi escrito. Parabéns pela coragem e honestidade. Sobre “fechar os olhos para as mazelas”, é verdade, ao menos em parte. No meu caso, esses questionamentos me acompanham quase todo dia. A única coisa que me mantém firme é saber e sentir, de forma indubitável, um amor oceânico que pessoa nenhuma conseguiria me dar, mas que, ao mesmo tempo, reverbera em cada pessoa ao meu redor. Já tentei tirar os olhos de Cristo, mas o que mais restaria? Para onde mais olharia? Nada brilha mais que ele. Abraços!

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    1. Primeiramente, obrigado pelo seu comentário! Fico muito grato por ele.

      Agora, em resposta a ele, o que tenho a dizer é que sinto falta desse “amor oceânico” a que você se refere. Antes de eu ser e estar nesse poço de incredulidade no qual me encontro, levava muito a sério minha relação com Deus e com a igreja como um todo. E quando paro para analisar esse meu passado, fico a me perguntar onde foi que eu me perdi? Qual foi o momento determinante onde eu olhei para dentro de mim e decidi que não dava mais? Sinceramente, acho que quando perdi minha fè, acabei perdendo também uma parte de mim e isso é estranho porque quando tento me entender, fica um eterno vazio que, aparentemente, só é preenchido por essas duas letrinhas. Vá saber.

      Grande abraço!

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