Junho · 2026

Epitáfios à Parte

O que ninguém vê quando você está só

· 22 abr 2026 · 6 min de leitura

Ouço, mas não quero

Nem sempre fui surdo, meu convívio com a surdez foi algo gradativo, uma crescente de silêncio que foi se aderindo à minha vida pouco a pouco mas não de forma imperceptível, pelo contrário, foi algo muito evidente e um tanto assustador dadas as perdas que tive ao longo do caminho. Mas, como alguém que viveu parte da vida como um ouvinte relativamente saudável, a realidade que se estende hoje diante de mim – a de uma pessoa com surdez total reabilitada após cirurgias de implante coclear – cria uma profusão de sentimentos um tanto contraditórios e que gera em mim uma dissidência emocional bastante difícil de lidar. O Pedro de antes da surdez se estabelecer parece uma pessoa distante e completamente diferente do Pedro que existe hoje e isso me faz questionar muitas coisas dentro de mim como, por exemplo, o estado de gratificação por voltar a ouvir diante de todo o desconforto que esse “voltar a ouvir” gera após um período de privação sensorial tão grande como o que vivi antes das cirurgias. Não há gratificação ou, pelo menos, ela não existe sem um ônus por trás dela.

Desde 2011, uso algum dispositivo de assistência auditiva de algum tipo, seja o AASI mesmo ou os ICs, atualmente. Um dos grandes privilégios que conheci com isso foi a possibilidade de “desligar” meus ouvidos, isto é, desligar esses aparelhos quando ouvir se torna desconfortável demais. Essa é uma realidade bastante distante do universo particular das pessoas sem problemas auditivos porque, afinal de contas, elas não têm essa opção. Como elas não tem essa possibilidade, ouvintes naturais desenvolvem o chamado filtro auditivo – o cérebro decide a quais sons dar a atenção. Isso é algo que todo mundo tem mas que se torna muito deficiente quando você desenvolve perdas auditivas. Quando você perde sua audição completamente, você perde esse recurso também porque não há mais estímulo, logo não há mais como saber o que e como ouvir de modo que essa capacidade se atrofia conforme você afunda cada vez mais no universo silencioso da surdez total.

Meu primeiro implante coclear foi feito em 2023 e foi um choque bastante grande quando o ativei pela primeira vez porque eu não tinha qualquer noção da imensidão do tamanho de minha surdez. Digo, eu sabia que já não ouvia mais nada mesmo com a ajuda dos AASIs mas a distância entre o que eu conseguia escutar com eles e o que eu passei a ouvir com os ICs era monumental. Voltar a ouvir, naquela época, foi uma surpresa gratificante, sem dúvida, no entanto, uma surpresa que veio acompanhada de todo um universo de dificuldades que surgem no caminho da reabilitação auditiva. Como muitas pessoas dizem nessa situação, eu até ouvia alguma coisa, mas não entendia nada. Ouvir, mas não entender, essa é uma das características mais importantes quando se fala em surdez porque as pessoas tem a ideia de que só é surdez se você não ouve nada, mas a realidade é que a surdez tem muitas caras e uma das principais é justamente essa incompreensão dos sons que surge mesmo quando você ainda consegue ouvi-los, mas não consegue entendê-los. Com os ICs, minha compreensão de fala, por exemplo, foi de 0 a 95% num pulo, um salto espetacular mas que, em contrapartida, não veio acompanhado da mesma evolução no meu filtro auditivo.

Na surdez, seu filtro é praticamente inexistente, então você precisa reconstrui-lo do zero outra vez tal como se fosse um recém-nascido saído diretamente do útero de sua mãe. Esse é um processo lento, bastante lento e que não acompanha a velocidade de sua aptidão auditiva – que segue num ritmo muito mais acelerado. Logo, você chega naquela situação em que, diferentemente de ouvir, mas não entender, você ouve, mas não sabe o que deve ouvir pois são vários sons ao mesmo tempo disputando a sua atenção. É o motor da geladeira fazendo barulho, o ranger das portas, sua própria respiração, o atrito ao tocar nas coisas, o barulho do teclado ao digitar. Em muito pouco tempo você se encontra na situação “eu ouço, mas não quero ouvir”. E é aqui que mora o maior conflito na minha vida enquanto surdo reabilitado porque, enquanto voltar a ouvir se torna um presente, voltar a ouvir também se torna um fardo. Não é que eu não seja grato por isso, mas depois de tantos anos vivendo no silêncio da surdez, você se acostuma a ele de tal forma que abandoná-lo se torna algo dispendioso demais. Você se acostuma mais facilmente ao silêncio do que se acostumaria a ouvir, ou essa tem sido minha impressão particular. Voltar a ouvir me trouxe a percepção de que a nossa realidade é barulhenta demais, tudo faz barulho, tudo mesmo. Tem coisas que eu ouço que me fazem questionar se todos ouvem isso também porque “não é possível que vocês não perceberam isso”. É muito estranho notar que, agora, sou eu quem pergunta às pessoas se elas não ouviram algo que eu claramente ouvi e perceber a estranheza nos rostos delas por se depararem com esse cenário.

Hoje, quase três anos após voltar a ouvir, isso ainda é algo que me assusta em muitos momentos porque ainda estou reconstruindo meu filtro, algo que demanda um esforço cavalar. Há momentos em que minha vontade é a de estender os braços ao silêncio eterno e me esquecer de todos os sons do mundo mas aí me lembro de tudo que redescobri e reconquistei com a reabilitação e fico a me ver numa eterna encruzilhada onde a única pergunta que persiste é quando ouvir deixará de ser algo desconfortável? Não sei se um dia encontrarei uma resposta a essa questão e, sinceramente, não sei qual a melhor escolha diante disso. Existe todo um universo que ainda estou descobrindo – barulhento e desconfortável, mas real. Fica a pergunta: quando ouvir deixará de ser um fardo?

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