Junho · 2026

Epitáfios à Parte

O que ninguém vê quando você está só

· 18 maio 2026 · 5 min de leitura

Desencaixe

Eu mudei de carreira em 2025, saí de um trabalho onde tinha certa segurança para retornar a uma área onde eu havia tido uma experiência muito ruim mas que, em contrapartida, me deu muitas lembranças boas. Não posso dizer que me arrependo de ter feito isso ao mesmo tempo em que também não posso dizer se essa foi a escolha certa. A verdade é que o que me moveu a isso foi esse sentimento constante de desencaixe e não pertencimento que me acompanhava desde que entrei pela primeira vez naquele emprego. O mais irônico nisso tudo, porém, é que esse sentimento nunca foi embora. Não! Na verdade, não me lembro se, alguma vez, ele não esteve presente. Hoje, sigo em meu segundo ano de faculdade, não tenho os mesmos problemas que tive em minha primeira vez nesse curso. Tento encontrar os porquês de ter feito o que fiz, de ter escolhido o que escolhi. Não encontro respostas ou consolo, somente a presença constante da dúvida, somente a eterna interrogação que me moveu em todos esses anos de vida. Após tanto tempo convivendo com a dúvida, meio que a enxergo como parte de mim e já não mais sou capaz de conceber minha existência sem ela ou longe dela.

Eu poderia me classificar em muitas coisas e, ainda assim, dizer muito pouco ou quase nada sobre quem eu realmente sou. Vim ao mundo cheio de problemas de saúde. Tenho uma síndrome genética rara que me deixou surdo, deformado, parcialmente cego e que me fez perder um pulmão. Tenho uma opinião filosófica e religiosa que se contradiz em muitos momentos mas que carrega em si o profundo apreço pelo ceticismo. Tenho uma sexualidade transviada que já me foi motivo de muitos conflitos – sobre os quais já escrevi aqui e aqui – e que, ainda hoje, aos meus 36 anos, ainda parece suscitar muito incômodo em algumas pessoas ainda que eu não pudesse fazer nada a respeito. Gay, ateu, deficiente, homem cis, branco, quantos rótulos eu poderia vestir e, mesmo assim, nenhum deles falar sobre minha essência, sobre aquilo que eu sou em meu íntimo, aquilo que eu não mostro aos outros mas que faz de mim quem eu sou de verdade. O Epitáfios à Parte carrega como lema a frase “o que ninguém vê quando você está só” quase como se isso fosse um lembrete constante de que aqui, neste espaço virtual, eu tivesse que me despir da máscara que eu carrego comigo dia após dia e pudesse falar daquilo que me incomoda em meu íntimo, porque, verdade seja dita, não me lembro mais quando foi que eu me senti encaixado em alguma coisa. Na realidade, não sou nem capaz de dizer se já me senti assim em algum momento nessa vida. Esse sentimento de pertencimento é uma coisa que costuma durar muito pouco não porque não pertencemos a nada mas porque ele vem acompanhado do tédio e do ócio. O desencaixe é uma necessidade de vida porque, sem ele, não nos movemos para nada.

Quando escrevi meu primeiro texto aqui no site, vivia uma completa e profunda crise existencial. Dez anos me separam daquele texto e, ainda hoje, diria que não consegui solucionar aquela crise. O que é interessante notar é que, no momento em que escrevi aquele texto, estava em meu segundo ano da primeira vez que cursava minha graduação atual. Dez anos se passaram e voltei ao lugar de onde tentava fugir quase como se estivesse preso a um eterno ciclo de repetições. A mudança de carreira aos 36 anos me fez vivenciar uma sensação constante de deslocamento. Conversando com uma pessoa aleatória na internet, começamos a falar de nossas vidas e de como ela, aos 30 e poucos anos, se sentia realizada com a carreira que seguia. Nesse momento, não pude evitar aquele péssimo costume de me comparar às outras pessoas na mesma idade que eu. Temos o mau hábito de nos compararmos aos demais quase como se precisássemos disso para validar todas as nossas escolhas, conquistas e derrotas. Julgamos nossa vida pelo quão aderente ela está àquilo que consideramos o padrão de sucesso. O problema, porém, é que o desencaixe não existe por mero capricho da natureza mas como o preço que se paga para refletir a realidade, não no sentido do espelho, mas do pensamento.

É estranho sentir-se fora de enquadramento como se você estivesse fora de prumo em qualquer situação. Você tenta se encaixar, pertencer, fazer parte. Você até sente uma leve brisa de felicidade em alguns momentos, algo não muito grande mas de tamanho suficiente para te dar a ilusão de que você está onde deveria estar. O problema é que essa sensação pode durar bem pouco e então, você se dá conta de que aquele sentimento já não existe mais e que você não sabe qual é o seu lugar de fato. O desencaixe nos acompanha desde sempre. Às vezes, mal damos conta de sua presença, em outras, o sentimos com tanta intensidade que ficamos perdidos em nossos pensamentos e ruminações. Esse sentimento nos impede de alcançar certa segurança existencial e, contraditoriamente, é o que nos movimenta. Todavia, o preço que se paga por isso é um eterno estado de inconstância porque, na realidade, não nos encaixamos em nada não por sermos incompatíveis, mas por sermos, de certa forma, únicos em nossa existência e, por extensão, sujeitos solitários no meio dessa imensidão de pessoas que se sentem, tal como nós, desencaixadas em suas vidas.

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2 respostas para “Desencaixe”

  1. Seu texto é forte porque não tenta vender respostas prontas. Ele mostra, com muita honestidade, como viver também é conviver com dúvidas, deslocamentos e recomeços. E talvez seja justamente isso que torne sua escrita tão humana e necessária.

    Mesmo carregando dores, rótulos e tantas questões existenciais, você transformou tudo isso em reflexão e sensibilidade. Poucas pessoas conseguem olhar tão profundamente para si mesmas e ainda ter coragem de expor isso ao mundo. O mais bonito no seu texto é perceber que, apesar do sentimento constante de desencaixe, você continua seguindo, tentando, mudando, estudando, escrevendo e existindo de forma autêntica. Isso já é uma forma enorme de resistência.

    Talvez o pertencimento não esteja em encontrar um lugar perfeito, mas em aceitar que somos feitos de movimento, dúvidas e reconstruções. E, sinceramente, sua forma de transformar inquietação em palavras pode fazer muita gente se sentir menos sozinha. Continue escrevendo. Sua voz tem profundidade, verdade e impacto.

    Você jamais poderia se encaixar em algo, pois é único e suficiente! Precisamos conversar mais sobre essa e outras temáticas.

    Parabéns meu amigo, você é luz!

    • Meu caro, muito obrigado pelo seu comentário, fiquei muito feliz em lê-lo.
      Penso que somos feitos de inconstância e que lutar contra isso pode ser um tanto improdutivo porque ela faz parte de quem nós somos enquanto seres pensantes. Queremos paz e felicidade e isso é ótimo, mas já reparou como a paz prolongada nos deixa estagnados? Não porque a rejeitamos mas porque não sabemos o que fazer depois de alcançá-la. Ao mesmo tempo, me pergunto se seria possível existir uma paz que não representasse um completo repouso no estado de ser das coisas. Acho que nunca terei essa resposta, mas eu sigo aqui, refletindo.
      Mais uma vez, obrigado! É muito bom vê-lo aqui.
      Um abraço1

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