Outubro · 2026

Epitáfios à Parte

O que ninguém vê quando você está só

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· 2 out 2026 · 4 min de leitura

Demônios dançam à noite

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Era uma noite silenciosa quando, sentando sobre a cadeira à frente de minha mesa de trabalho, olhava a vida através da janela para um mundo onde as pessoas seguiam suas rotinas, indo e vindo para onde quer que fosse, terminando ou talvez começando um turno de trabalho, vá saber, vivendo o que quer que elas tivessem que viver. Aqui dentro, ficava eu imerso em meus pensamentos, tentando encontrar um fio de meada que ligasse as coisas, que desse significado ao mundo, que desse significância a mim. O ambiente silencioso amplificava as vozes vindas de minha mente e hiperbolizava todos os sentimentos que tumultuavam meu espírito naquela noite em que, estando eu sozinho, assistia meus demônios dançando livremente como se aquela situação fosse um cortejo simbólico de uma alma vazia de sentido mas cheia de perguntas sem respostas.

Aquela noite era, para mim, como um instante congelado no tempo onde tudo o que estivesse fora dele seguia livremente seu fluxo enquanto que ali, naquele pequeno espaço onde eu me encontrava, tudo era silêncio, tudo era inércia. Nada era vívido, mas também nada estava morto. O tempo não fluía, não avançava nem retrocedia. Não cedia nem pressionava. Era como um retrato de um momento que ninguém jamais veria a não ser aquela única alma silenciosa que ali estava a assistir seus demônios que, contrariando todas as leis físicas do universo, dançavam livremente naquela noite envolta por inércia.

Fora daquele lugar, tudo era o caos ordenado de sempre de um mundo onde tudo se movia a velocidades absurdas e onde nada era o mesmo para sempre porque, no instante em que era, deixava de ser para ser outra coisa no instante seguinte. Eu não conseguia acompanhar aquilo, tudo era muito alto, muito intenso, muito frenético. Não havia um padrão, não havia um ritmo, tudo acontecia ao mesmo tempo e ao mesmo tempo todas as coisas precisavam ser ditas, entendidas, processadas, repetidas e respondidas. Como tudo aquilo perturbava toda a aura de quietude que havia dentro de mim, estar no espaço silencioso era, para mim, minha rota de fuga de um mundo onde todos falavam mas ninguém se ouvia de verdade.

Meus demônios dançavam, mas dançavam para mim. Dançavam num ritmo constante e cadenciado. Um ritmo que me permitia apreciar toda aquela dança que eles executavam tão plenos, tão cheios de si, tão envoltos em beleza e, ao mesmo tempo, renegados da salvação que lhes era de direito. Os demônios me encantam porque, demônios, nem sempre eles foram. Um dia, num passado tão distante e esquecido como as areias do tempo que permeiam o solo pelo qual caminhamos, esses demônios dançantes foram seres de luz, anjos em sua forma mais luminosa e altiva, criaturas que, criadas por um deus que se mostraria contraditório, irascível e cheio de rancor, escolheriam habitar o mundo dos homens e andar entre eles para desfrutar de uma liberdade que os anjos não tinham, mas pela qual sacrificariam sua eternidade para chegar o mais próximo dela.

Eu não gosto da luz, prefiro as trevas. Na luz, meus olhos se ofuscam e se fecham, impedindo-me de ver as coisas com total clareza. Na escuridão, meus olhos se abrem e buscam o mínimo resquício de traço luminoso para se orientar, entender, perceber a realidade ao seu redor. Eu vivo nas trevas porque elas me acolhem, não me sufocam nem me pressionam a viver uma vida tal qual a vida de todos aqueles que pensam que suas vidas se resume a seguir o ritmo caótico e frenético de um mundo que busca perdurar pelo sangue sugado friamente de seus escravos voluntários. As trevas são o meu lar porque, nelas, me sinto protegido. Na luz, tudo é exposto, todos os pecados, todos os acertos, todo julgamento, mas quem julga nunca se faz presente, nunca se mostra e nunca se submete ao julgamento que ele aplica sobre os outros. Na escuridão, eu existo. Na luz, eu resisto.

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