De onde vem o estrangeiro que habita dentro de mim?
Desde nossa concepção, somos estrangeiros no mundo e, digo mais, estrangeiros na vida.
Não pertencemos a esta vida mais do que uma rocha que aqui existe há milhares de anos.
Nossa vida é passageira e, sendo assim, a única verdade sobre tudo é que somos estrangeiros na realidade.
O absurdo que nos concebe pelo coito nos torna estranhos e alheios a todo o resto que nos circunda.
Somos poeira, meros fantasmas de um universo que já deixou de existir.
Como todo estrangeiro, passamos pela vida como passam todos os passageiros.
Tudo é passagem e, ao mesmo tempo, tudo é momento.
Existimos no tempo uma fração de todo o tempo que o tempo tem.
Fugaz, inconstante, imprevisível, mero instante que precede todo o silêncio que dá voz ao vazio da vida.
Cada instante, um universo. Cada universo, uma passagem.
Vivemos pelas lembranças porque elas saciam aquela necessidade inerente a nós de querer plantar nossas raízes em um porto seguro qualquer.
Porque, verdade seja dita, custamos a admitir que, desse mundo, nada somos e nada seremos exceto passageiros dessa vida.
Nascemos, crescemos, vivemos e morremos como todos os outros que vieram antes de nós e como todos os outros que virão depois.
Não há onde plantar raízes porque até mesmo a própria realidade não é capaz de sustentar sua própria existência se não pelo pensamento acumulado de incontáveis mentes.
O que era e o que será são apenas páginas de um livro lido por sabe-se lá quem.
As páginas se acabam mas outros livros surgem para serem lidos.
Contudo, para nós, o fim é o fim no virar de uma página.
O que somos nós, senão, meros fragmentos de tempo?