Julho · 2026

Epitáfios à Parte

O que ninguém vê quando você está só

· 1 jul 2026 · 4 min de leitura

Deus e o mal que nos habita

Vez ou outra me vejo no meio de certos conflitos onde tenho de lidar com a escuridão que existe em mim; eu a amo ainda que, em alguns momentos, ela me cause medo e espanto. Um dos motivos que me fez abandonar a vida religiosa foi essa busca interminável por silenciar as sombras que nos habitam como se elas não fossem justamente aquilo que nos definem como humanos. É linda toda a busca por evolução moral e pessoal mas, ao mesmo tempo, é estranho como essa busca, quase sempre, envereda por um caminho de negação da nossa natureza. O que nos torna indivíduos reais e não uma virtualização daquilo que julgamos ser o melhor de nós inclui também e, talvez, principalmente, toda a escuridão que insistimos esconder das pessoas. Você pode tentar fugir dela e negá-la com todas as suas forças e convicção, mas ela sempre estará lá dentro esperando o momento certo para vir à tona.

Não sei se eu acredito que haja uma “natureza humana” por trás de nossos comportamentos. Quando me perguntam isso, costumo dizer que tudo depende dos fatores envolvidos na questão e que muito do que consideramos como bom ou mal é resultado direto de aspectos diversos que, muitas vezes, acabamos por ignorar. Ninguém nasce bom, mas também ninguém nasce mau. Penso na vida e na humanidade como um complexo de ficções que se convergem e dão forma a tudo o que entendemos como sendo nossa realidade tal como uma cebola que só existe por conta de todas as camadas que a compõem. O mal não existe sozinho e nem o bem também. De certa forma, tudo envolve uma escolha ainda que, muitas vezes, essa escolha seja feita de modo involuntário ou inconsciente. E são todas essas escolhas que, no fim, dão forma à cebola que nos representa, sendo cada camada um reflexo de uma escolha diferente, uma ficção diferente que converge para nos criar.

Meu conflito com a religião é o seguinte: somos feitos à imagem e semelhança de deus (segundo o credo que eu praticava), logo, tudo o que há de bom e, também, de mau em nós foi criado a partir da própria vontade de deus. Se o mal nos habita e somos feitos à imagem de deus, isso significa que o mal habita deus também? E, se o mal está em deus, isso não quer dizer que ele próprio é a essência do mal a partir do qual somos feitos? Negar esse nosso lado não seria negar nossa hipotética natureza divina e, por extensão, negar o próprio deus? Existem outras questões, é claro, quase sempre sem respostas porque, infelizmente, a religião se recusa a abordá-las tapando tudo com um argumento frouxo de busca à santidade. Mas, quem é santo? Deus?

A sombra que me habita faz de mim quem eu sou. Negá-la é, tão somente, negar a mim. Eu sou bom e mau, luz e trevas, penumbra eterna de uma mente fugindo da caverna. Esse claro-escuro que me traz à vida existe em mim e em todo o resto. A claridade nos permite ver as coisas com mais facilidade, mas ao mesmo tempo nos ofusca a visão quando intensa demais. A escuridão esconde as coisas que queremos ver, mas ao mesmo tempo nos força a abrir os olhos para que possamos encontrá-las. Luz e sombra não são faces de uma mesma moeda. Isso seria simplista demais porque, na realidade, elas não existem sozinhas, se complementam e dão forma a toda a realidade que vemos existir. Sem uma, todo o resto perde seu sentido.

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